quinta-feira, 24 de julho de 2014

O Movimento e a Música Armorial de Ariano Suassuna

Foto: Renato Rocha Miranda
 

É com grande pesar que no dia 23 de Julho de 2014 nos despedimos de Ariano Suassuna, resolvi então relembrar os feitos artísticos desse grande escritor brasileiro, publicando aqui no blog parte da minha monografia de graduação, na qual um dos assuntos abordados é a importância do movimento Armorial criado por Ariano Suassuna. Agradeço ao mestre por ter me feito conhecer esse belo movimento, descanse em paz.


O Movimento Armorial e seu projeto.

Mesmo com toda influência norte-americana e da capital do Brasil, a ideia de que elementos regionalistas haviam sido preservados no interior sempre foi muito forte. Os elementos regionalistas, na visão de alguns, viriam fortalecer a identidade brasileira favorecendo o nacionalismo. Para os armorialistas, certos polos não teriam tido contato com influências externas, agentes modernizadores da conhecida “cultura de massa”. (BARROS, 2008, p.338) Essa vertente teve e tem muitos adeptos que buscam o velho conceito de “original”, ou no caso da música, o que chamamos nessa pesquisa de arte “divinizada” ou “sacralizada”. Poderemos observar a seguir, bastante dessa ideologia, presente no Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna.


O Movimento Armorial, foi organizado oficialmente na década de 1970, Ariano Suassuna partiu da ideia de buscar formas de intervir no que chamava de “cultura brasileira”, encarada por ele como uma espécie de patrimônio nacional, preservado no povo. (BARROS, 2008, p.335) Segundo Suassuna o movimento tinha como objetivo, “criar uma arte erudita brasileira a partir das raízes populares da nossa cultura, e de combater, assim, o processo de vulgarização cultura ao qual ainda hoje nos encontramos submetido”. (id, p.9) Ou ainda: “lutar contra o processo de descaracterização que a cultura brasileira vem sofrendo...” (SUASSUNA, 2003, Apud BARROS, 2008, p.335)
Gilvan Samico deu a "cara" ao Movimento Armorial
O Movimento Armorial
, era uma espécie de manifesto que procurava esclarecer as questões de uma arte erudita baseada nas raízes populares da cultura brasileira (BARROS, 2006, p.12). Para Suassuna não existe uma hierarquização na música, mas ainda sim, vê o erudito como uma qualidade necessária para termos uma arte erudita realmente “nossa”, além de possuir seu caráter “pedagógico” de reeducar o músico brasileiro. (BARROS, 2006, p.94 e 99) Ainda em tempo, acrescento uma definição de Arte Armorial, do próprio Suassuna:
Tipografia desenvolvida por Ariano Suassuna
A ideia de se criar uma arte erudita, é afirmada por Suassuna com a intenção de se “garantir o lugar de nossa cultura entre grandes culturas do mundo” (SUASSUNA, 1997, Apud BARROS, 2008, p.338), mas porque a cultura popular precisar se tornar erudita para ter um lugar de destaque? A resposta virá mais adiante.










A arte Armorial tem uma enorme abrangência, a princípio parece abordar apenas o teatro, mas ao nos aprofundarmos mais no tema, poderemos descobrir que ira englobar a literatura, a arte visual e a música.

A Arte Armorial Brasileira é aquela que tem como traço comum principal a ligação com o espírito mágico dos “folhetos” do Romanceiro Popular do Nordeste (Literatura de Cordel), com a música de viola, rabeca ou pífano que acompanha seus ´cantares´, e com a Xilogravura que ilustra suas capas, assim como com o espírito e a forma das Artes e espetáculos populares com esse mesmo Romanceiro relacionados (SUASSUNA, 1974, Apud BARROS, 2006, p.12)


ERUDITO OU POPULAR?

Através da arte do povo Suassuna queria “absorver o espírito ao mesmo tempo trágico e cômico” (SUASSUNA, 2008, p.48). Sua intenção era montar uma arte que atingisse profundamente o público comum, como aquelas pessoas que vão ao teatro ou mesmo ao circo assistir um espetáculo. Suassuna idealiza peças teatrais que refletissem os aspectos da região, buscar elementos, se “alimentar dessa luz que parte do real e a ele retornar” (SUASSUNA, 2008, p.49) oferecendo uma nova arte, que Suassuna chama de “domada”1. Ariano reconhece o termo pejorativo dado ao folclore (no sentido de pitoresco) e é por essa razão que ele procura fazer um teatro que tenha ligação com o clássico e com o barroco:
na minha opinião, está é a posição que pode atingir melhor o real, no que se refere a mim e a meu povo. Faço da originalidade um conceito bem diferente do de hoje, procurando criar um estilo tradicional e popular, capaz de acolher o maior número possível de histórias, mitos, personagens e acontecimentos, para atingir assim, através do que consigo entrever em minha região, o espírito tradicional e universal. Quero ser, dentro de minhas possibilidades, é claro, um recriador da realidade como tragédia e como comédia […] Quero um teatro trágico e cômico, vivo e vigoroso como nosso romanceiro popular, um teatro que se possa montar, sem maiores mistérios, até nos recintos de circo, onde o verdadeiro teatro tem-se refugiado (SUASSUNA, 2008, p.47)

A arte Armorial não se encaixa como “popular” e nem como “erudita”. O Músico Antônio José Madureira chegou a afirmar que pode ser entendido como uma obra popular com elementos do erudito. A obra musical armorial vai buscar material temático no elemento popular, em que certas características podem se sobressair mais que outras. (MADUREIRA, 2006, Apud BARROS, 2008, p.339) Madureira ainda aponta a visão que prevalecia da música nacionalista, ao modo de Heitor Villa-lobos, que era uma arte erudita com elementos do popular, afirmava que “A nossa proposição era até uma inversão disso, fizemos uma música popular com elementos eruditos” (MADUREIRA, Apud BARROS, 2006, p.66) Mesmo que Suassuna declare a opção por criar uma arte erudita, podemos observar que na música armorial, “popular” e “erudito” tem o mesmo valor artístico, criando uma interação, ou seja, a circularidade cultural que atua do popular para o erudito, e do erudito para o popular, sendo nesse caso, o constante tráfego que cria a cultura Armorial, nascida dessas interações, sem se definir a qual dos dois lados pertence podendo ser avaliada como contendo elementos eruditos e populares.


QUINTETO ARMORIAL
Quinteto Armorial

O Quinteto Armorial, é a realização da ideia defendida desde 1946, por Ariano Suassuna, sobre a “poética” dos Cantadores sertanejos. Em 1970 Suassuna procura convencer os músicos que o acompanhava, a aproveitarem o uso da viola, a rabeca, o pífano e o marimbau, mas Jarbas Maciel2, considerava que os instrumentos populares corriam o risco de desafinar. Declara que foi em 1969 que começaram os trabalhos de composição da Música Armorial, fundamento do grupo Quinteto Armorial ainda naquele mesmo ano. O grupo era composto de duas flautas (imitando os pífanos do “terno”) um violino e uma viola de arco (no lugar das rabecas), percussão (no lugar da zambumba). Suassuna se declarava insatisfeito, pela exclusão dos instrumentos rústicos e pela ausência da viola sertaneja, problema esse que em parte foi resolvido com a convocação do violonista Henrique Annes, suprindo com o violão a viola sertaneja que faltava. Suassuna via como justificativa para o uso da música regional, o seu caráter “didático”, vendo como um modo de “reeducar” os músicos, encaminhando esses para uma pureza e uma estrutura musical brasileira. Em 26 de novembro de 1971, conheceria Antônio José Madureira, que segundo Suassuna, “abriria novas perspectivas para a Música armorial”.
Quinteto Violado
Ariano Suassuna chama a atenção para o Barroco ibérico, próximo ao espírito medieval e pré-renascentista. Fernando Torres Barbosa, um antigo aluno de Estética de Suassuna, fora quem apresentará Madureira, ficou inspirado na estrutura do Quinteto Armorial, e fundou mais tarde em 1971 o Quinteto Violado. (SUASSUNA, 1977)

AS FASES DO MOVIMENTO ARMORIAL
Em 1975 Ariano Suassuna é nomeado Secretário da Educação e Cultura do Recife, marcando a nova fase do movimento, denominada Romançal3. (BARROS, 2006, p.11) Em 1978, Ariano Suassuna deixa a Secretaria Cultural, e o movimento vai perdendo força até 1981 e o Quinteto Armorial se dissolve. Suassuna só retorna a vida pública em 1990, eleito membro da Academia Brasileira de Letras, vem com novas propostas armoriais, como o Projeto Pernambuco-Brasil, Trupe Romançal de Teatro e do Quarteto Romançal de Câmara.(BARROS, 2006, p.12)
Muitos grupos surgiriam depois como o Rosa Armorial
Ana Paula Campos Lima, divide o Movimento em três fases, a primeira: fase experimental, que iria de 1970 à 1980, quando o movimento é lançado; fase Romançal, de 1980 até 1995, marcando o fim do Quinteto Armorial e a formação da Orquestra Romançal Brasileira; e a terceira fase, chamada de fase arraial, de 1995 em diante, com a presença do músico Antônio Nóbrega (presente desde a primeira fase como violinista/ rabequeiro e compositor). (LIMA, 2000, p.2-4) Santos define a primeira fase como “preparatória”, com um trabalho da descoberta da sensibilização dos artistas que vinha desde 1946, a segunda fase experimental, com referência ao Barroco Ibérico e o sertão, e a fase Romançal, marcada pela aproximação com o popular. (SANTOS, 1999, Apud BARROS, 2008, p.340)



O último trabalho do Quinteto Armorial, o Sete Flechas, de 1981, é possível perceber na música do quinteto uma aproximação com elementos da música praticada na Zona da Mata pernambucana, tais como os frevos e marchas, produzindo uma música diferente de sua fase Armorial. Podemos observar que embora Ariano Suassuna tenha nascido em João Pessoa, que fica na Zona da Mata pernambucana, o escritor, buscou no sertão ao oeste, o material cultural para seu projeto. Com a fase romançal se aproximando da cultura da costa. 




CONSIDERAÇÕES FINAIS
 
Perdemos um grande mestre, talvez um pouco esquecido pelos mais novos, mas conhecido por aqueles que buscavam a cultura e a arte nordestina, talvez muita gente se lembre dele por causa de obras como A Pedra do Reino, ou o Alto da Compadecida (ou mesmo apenas pelo filme). Devemos encarar que Suassuna viveu por 87 anos, passou por muitas dificuldades, como ver a morte do pai e o suicídio de um filho, ainda sim se mostrou forte para encarar a vida e criar tudo isso que pude escrever aqui...
Troquei um e-mail com Frederico de Barros , o pesquisador que tanto citei nesse artigo, e concordo com a frase dele: “mas ao que parece a estadia dele por aqui valeu”, lamentamos a perda do mestre, mas temos a conciência que Suassuna produziu muito durante sua vida, sua estadia valeu! E Somos muito agradecidos!

Por Daniel Marcos Martins
Notas:
1Poderíamos mesmo chamar de estilizada.
2Compositor que junto a Guerra Peixe, foi “indispensável para o surgimento da Música Armorial” (SUASSUNA, 1977)
3O termo romance vem de uma amálgama de dialetos, que tem origem das línguas românicas; é também o termo utilizado na poesia cantada “em romance”, em oposição a cultura letrada. No Brasil “romance” remete ao romanceiro popular brasileiro, nos romances de folheto, orais e escritos. (BARROS, 2006, p.29)



BIBLIOGRAFIA
BARROS, Frederico Machado de. Cantiga de Longe: O Movimento Armorial e a proposta de uma música de concerto brasileira.110f. Dissertação (Mestrado em Educação) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.

___________________________. César Guerra-Peixe: A modernidade em busca de uma tradição. 295 f. Tese (Doutorado em Sociologia) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2013.

___________________________. “Toada e desafio: arte e cultura brasileira na produção musical do movimento armorial” In: GIUMBLELLI, Emerson; CESAR, Júlio; DINIZ, Valladão; NAVES, Santuza Cambraia. Leituras sobre música popular: reflexões sobre sonoridade e cultura. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

LIMA, Ana Paula Campos. A música Armorial . 33 f. Trabalho de Conclusão de Curso (graduação em comunicação Social – habilitação em Relações Públicas) Orientadora: Cristina Maranhão, Universidade Católica de Pernambuco. Pernambuco, 2000.


SUASSUNA, Ariano. Almanaque Armorial. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.



6 comentários:

  1. Obrigado Daniel Marcos Martins, por nos dar o privilégio de ler seu trabalho sobre o Movimento Armorial. Grande abraço. Gilfranco Lucena dos Santos.

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    1. Gilfranco eu que agradeço pelo comentário, fico feliz que tenha gostado.

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  2. Muito bom o texto Daniel!

    Esse movimento tem muito a seguir ainda, em minha opinião!

    Um grande abraço!

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  3. Concordo com o Tiago. Acompanhei os trabalhos dos Quintetos Armorial e Violado, da Orquestra e de repente, ficamos com um "gosto de quero mais", não so na musica mas tambem nas outras manifestações. Ficarei a espera de novas postagens sobre o mestre Suassuna e sua obra. OK?
    Como proceder para ter acesso a sua monografia, Daniel?
    Obrigada.

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    1. Fala Conceição, fico imensamente grato pelo comentário, conheci Ariano através da música Armorial, sendo mais especifico tocando uma música de Ernani Aguiar (que foi aluno de Guerra Peixe e esse contribuiu para iniciar o movimento). Teremos um podcast bacana sobre Guerra Peixe, não é exatamente o Ariano Suassuna mas tem ligação, aguarde =)

      Peço que não repare na forma como está escrita a monografia, recem formado, primeira monografia da minha vida sob pressão de datas e horários, vendo minha forma de escrever encontro uma série de defeitos.
      https://www.academia.edu/5443616/FUNDACAO_EDUCADIONAL_UNIFICADA_CAMPOGRANDENSE_-_FEUC_FACULDADES_INTEGRADAS_CAMPO-GRANDENSES_-FIC_CURSO_DE_LICENCIATURA_EM_HISTORIA

      está nesse link, muito obrigado pelo interesse.

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  4. Fios se conectando na minha mente

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