terça-feira, 15 de julho de 2014

A setlist da Copa do Mundo 2014

O fim da Copa do Mundo muito se assemelha a um show da sua banda preferida. Você passa meses, talvez até anos na espera daquela noite especial, aquela noite em que tudo sai de um plano até então abstrato e torna-se concreto perante seus olhos. Você está ali. Você está vivenciando aquilo. E como todo melhor show da sua vida, ele acaba depois do encore e você vai pra casa só para acordar cansado e moído de tanto curtir, mas também deprimido por ter acabado.

Depois de ver o time de übermenschs levar a taça Jules Rimet para Berlim, ficamos com saudade do show. O show de um mês (maior que qualquer show do Dream Theater que já fui) acabou no domingo, deixando uma segunda melancólica e saudosa da copa.

E qual foi o setlist do show dos shows?





Yakety Sax (Abertura Da Copa):
A ansiedade pré-show é um sentimento compartilhado por todos da platéia. Antes que as luzes se apagassem, o friozinho na barriga ficou, assim como a insatisfação de muitos que contrariados foram obrigados ao abrir o espetáculo. As vaias aumentavam a cada minuto. Cadê os músicos? E quando menos esperamos, as luzes apagaram e os músicos apareceram, com uma música de abertura que nos deixou no mínimo confuso e preocupados com o espetáculo. “Mas que porra foi essa?”, “Isso foi improvisado?”, “Isso é uma piada?”. Não se sabe até hoje. A única coisa que temos certeza é que foi abaixo do que esperávamos. Antes de começar, viramos piada até no The Guardian. E ainda por cima, o gol de abertura foi de autoria brasileira, mas não como gostaríamos.




Rage Against The Machine – Take The Power Back (“Protestos” e vaias a Dilmas):
A cena que mais emputece em show; A banda prossegue com a música no palco e você vê um grupo de moleques de 15 anos fazendo um mosh pit e acabando com o show e o saco de muita gente em um diâmetro de 2πR. O reivindicar pelo reivindicar, protestar pelo protestar e a transgressão juvenil de uma sociedade que ainda dá seus primeiros passos na vida adulta da democracia. Teve até pai cortando a mesada.




Alice In Chains – We Die Young (A desconstrução de campeões e nova revolução do futebol):
E quando achávamos que o show iria debandar com a mesma setlist dos últimos 8 anos com uma previsível “Enter Sandman”, o próximo riff é um sensacional e soco slow-mo, daqueles que deixa as marcas de dedos na cara. Se Itália, Inglaterra e Espanha achavam que a próxima música seria Enter Sandman, elas ficaram exatamente como a capa do álbum Facelift, do Alice In Chains; Desconfiguradas, boquiabertas e confusas com a força da porrada. Até mesmo o último melhor jogador do mundo,Cristiano Ronaldo entrou no mosh pit.




Simon & Garfunkel – The Sound Of Silence (A lesão do Neymar e o som do silêncio):
Com o Brasil passando apertado pelos placares e fazendo vilões virarem santos, vibramos com a energia de um show lindo e de perfeita execução técnica, com um setlist energético e renovado. Até que as luzes vermelhas e fortes, as luzes ficaram azuis e fracas. O público assiste calado e emocionado ao som acústico da vértebra de um garoto quebrando. Mesma vértebra aquela que carregava o peso de uma seleção desorganizada por um técnico casmurro.




Scorpions – Rock You Like A Hurricane (Alemanha 7 x 1 Brasil):
Com a alma lavada de choro, nos preparamos para sermos sacudidos. Assim como Scorpions sacudiu o Brasil no Rock In Rio de 1985, fomos sacudidos com solos e arpeggios de uma técnica ímpar da Alemanha. Só que dessa vez não eram Michael Schenker e Rudolf Schenker que estavam no telão, e sim Miroslav Klose e Thomas Kroos, infelizmente.




Faith No More - Midlife Crisis (Brasil perde disputa do 3° lugar para a Holanda):
Com um setlist que já sabíamos estar se aproximando do final, acompanhamos a batida marcada da bateria. Nos sentimos traídos. Entoamos a letra da música, sentindo palavra por palavra, putos com a falta de reciprocidade. Demos apoio e fomos retribuídos com um estado catatônico de futebol. Ouvimos sóbrios a música enquanto testemunhávamos a crise de meia idade do futebol brasileiro. O coração menstruado do brasileiro parecia não sangrar o suficiente para dois.



The Smashing Pumpkins – Geek USA (A sensacional e intensa partida pela taça):
Depois de um show intenso, onde pulamos, gritamos e choramos, chega a última música. Costumo dizer que a última música é a mais importante de todo o show porque ela traz a conclusão que vai ficar na sua memória. E o bis não decepcionou. Uma música energética que fez até mesmo lavar o gosto da amarga Midlife Crisis. Vimos um jogo muito bem eqüilibrado e cheio de lances bonitos. Caiu muito bem e ao mesmo tempo bateu uma dor gostosa ao ouvir o apito final. A sensação de satisfação, mas o gostinho do quero mais. Feliz, mas já sentindo saudade, eu vi uma linda música de encerramento do Götze.



E já é a manhã depois do show. A manhã melancólica que sucede a noite de festa. Não sei o que pode doer mais, um show ruim que não me faça com essa dorzinha, ou um show excelente que me deixa levemente magoado que tenha acabado? E na tarde dessa segunda, no trabalho perdemos os nossos pensamentos nos melhores momentos do show dos shows. Enquanto acordamos com uma leve depressão pós show, Berlim ainda continua soltar 99 balões vermelhos ao som de Nena – 99 Luftballons.

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