segunda-feira, 17 de março de 2014

Problemas em Métodos de Teoria Musical.


          
Resolvi elaborar esse texto para apontar alguns problemas presentes no método de teoria músical de Maria Luisa de Mattos Priolli. Os problemas apresentados são de natureza teórica e de natureza histórica. Maria Luisa de Mattos Priolli, tem um conteúdo bem didático no ensino de música, a autora comete erros no ensino de algumas lições teóricas, que são equivocadas, na qual discorrerei mais adiante. Também me impressiona não haver criticas à autora, talvez por conta de um conservadorismo por parte dos músicos e das instiuições que ainda usam o método, ou mesmo por medo de exposição ao criticar o método tão tradicional. Como exemplo de instituição que utiliza Priolli, temos as provas para sargento músico da Marinha, a se observar no Edital de convocação para o Concurso de Admissão ao Curso de Formação de Sargentos Músicos do Corpo de Fuzileiros Navais em 2013, em que podemos ver a seguinte:





4.1.1.2 – Referências Bibliográficas:
a) Mascarenhas, Mário; Cardoso, Belmira. Curso Comp
leto de Teoria Musical e Solfejo. Editora
Irmãos Vitale. 2º Volume. 8ª edição 1996;
b) Med, Bohumil. Teoria da Música. 4ª ed. revista e
Sargento Músico da Marinha
ampliada. Brasília-DF, Musimed, 1996;
c) Priolli, Maria Luísa de Mattos. Princípios Básic
os da Música para a Juventude. 1º Volume. 52ª
ed. revista e atualizada. Casa Oliveira de Músicas,
RJ 2011;
d) Priolli, Maria Luísa de Mattos. Princípios Básic
os da Música para a Juventude. 2º Volume.
32ª ed. revista e atualizada. Casa Oliveira de Músi
cas, RJ 2012;
e) Bennett, Roy. História da Música, 2ª Edição, RJ
– Jorge Zahar Editora, 1986;
O edital da Marinha ainda pede como bibliografia o Bohumil, mas o edital do exército pede apenas Priolli, isso para exemplificar alguns casos.


PROBLEMA HISTÓRICO:  Eurocentrismo

Flautas indígenas
 Começarei apontando o juízo de valor da autora, em relação aos povos indígenas, carregada de um eurocentrismo reprovável, afirmando que os Tupinambás dançavam em ritmo monótonos ou “excessivamente enfadonhas” (PRIOLLI, 2010, p.117). Assim a autora continua em seus julgamentos dizendo que “Na música dos índios do Brasil predominava o ritmo, caracteristicamente bárbaro. Imitavam o canto dos pássaros, o murmúrio das águas e o sussurro das folhas, dando à sua música um sabor agreste e rude” (Id) ou descrevendo os cantos como: “estridente e monótono, próprio da música ameríndia, acompanhado quase sempre de instrumentos ruidosos, foi recebendo o influxo direto dos cânticos serenos e melodiosos e tão cheios de sentimentos religiosos, dos missionários jesuítas.” (PRIOLLI, 2010, p.118) O julgamento de Priolli é reprovável, cercado de um etnocentrismo claro, o seu uso atual na formação do músico faz prevalescer uma visão totalmente deturpada da cultura indigena. Para um estudo mais sério sobre o assunto, sugiro que professores e pesquisadores trabalhem com livros como “Tristes Trópicos” de Claude Lévi-Strauss, que mesmo falando pouco da música, enfoca bastante na cultura ameríndia, o “O povo brasileiro” de Darcy Ribeiro, que também tem um ótimo enfoque na cultura e por fim o livro “Raízes da Música Popular Brasileira” de Ary Vasconcelos, contando com registros feitos pelo viajante francês Jean de Léry, que foi o primeiro a colocar na pauta musical os cantos indígenas. Vasconcelos deixa claro as diferenças, e mesmo como Léry tinha seus preconceitos: “Na verdade, os índios conheciam, melhor, conhecem música, só que não, evidentemente, a música europeia, a única que Léry entendia como tal...Um preconceito, aliás, que não foi ainda extirpado, diga-se de passagem.” (VASCONCELOS, 1991, p.15). O material de Vasconcelos abre para uma análise mais profunda da música indígena, que também pode ser facilmente trabalhada em sala de aula.


A seguir falarei sobre os problemas teóricos presentes no método de ensino de Priolli, peço desculpas aos leitores leigos no assunto, mas é importante apontar ainda nesse mesmo texto outros tipos de problemas da autora.

PROBLEMAS TEÓRICOS: Escrita do compasso
 
Se trata de um erro básico, nada grave. Existe uma forma de se escrever a fórmula de compasso que é mal escrita por Priolli. Como podemos ver na página 28. Já Bohumil indica essa escrita como errada, explicado por ele na página 119 de seu livro:

 
Fórmula de compasso em Bohumil Med.

 Pode parecer a príncipio preciosismo de minha parte, mas devemos prezar por uma escrita limpa, mas a importância desse erro não afeta em nada a execução e entendimento da música, por isso considero como um erro leve. Bohumil explica sobre a linha separatória da fração e sua representação dizendo que "Geralmente se suprime a linha separatória da fração quando grafada no pentagrama, pois esta coincide com a terceira linha da pauta." (BOHUMIL, 1996, p.118)

Escrita da fórmula de compasso em Priolli



PROBLEMAS TEÓRICOS: Síncope
O problema aqui é mais sério, encaro como um erro mesmo. Entendemos que acento métrico é a intensidade maior atribuída a determinadas notas de um determinado compasso, para dar característica ao compasso e ajudar na interpretação do andamento, do contrário, todos compassos seriam iguais, (como exemplo temos as Valsas em compasso ternário, caracteristico pela acentuação forte, fraco, fraco). o Metrum é a alternância de tempos acentuados e não acentuados em tempos fortes e fracos que não serão grafados na pauta. (BOHUMIL, 1996, p.141)

Básicamente são três tipos de compassos, o Binário, Ternário e Quaternário, cada qual como seu tipo de acentuação métrica caracterisica.


Acento Métrico em Bohumil Med

Lembrando que essa análise é feita em todo o compasso, em seus tempos inteiros (acentos principais), mas cada parte desse tempo pode ser analisada em separado (acentos secundários), ao que chamamos de parte de tempo, que será analisada da mesma forma que os compassos binários, ternários e quaternários, ou seja, se em uma pulsação tem 2 notas, será analisado aquele tempo como binário, se tiver 3 notas, como ternário, se tiver 4 notas como quaternário. Para melhor exemplificar temos a figura a seguir. Podemos ver que além da análise do tempo inteiro poderemos fazer a análise de Metades de tempo (2 notas) ou em Quartos de tempo (4 notas). 

Acentos ssecundários em Bohumil

Podemos observar que o compasso quaternário ou sua análise em quartos de tempo sempre é dividida em Forte, fraco, meio forte, fraco. O problema começa quando Priolli afirma que o compasso deve ser dividido como: Forte, fraco, fraco, fraco. Dizendo que a acentuação do terceiro compasso é "defeituosa [...] uma vez que tal acentuação desvirtua o caráter do compasso de 4 tempos." (PRIOLLI, 2010, p.34)

Acento Métrico em Priolli

O defeito não existe, pois o meio forte dá a movimentação ao compasso quaternário, e ainda sim a proposta feita por ela também mostra seus defeitos, pois os três primeiros tempos caracterizariam um compasso ternário (Forte, fraco, fraco). Mas meu maior argumento não está ai para o erro de Priolli, mas sim quando ela própria entra em contradição quando analisa a Síncope.

 
Sincope em Priolli.

Sincope segundo a própria Priolli é "se uma nota executada em tempo fraco ou parte fraca de tempo for prolongada ao tempo forte ou parte forte do tempo seguinte, teremos o que se chama - sincope" (PRIOLLI, 1979, p.48) Vejam bem que eu sublinhei uma afirmação da própria autora que na própria página mostra a sincope ocorrendo em uma divisão de Quartos de tempo, ou seja, o segundo tempo fraco subtrai o terceiro tempo meio forte (meio forte seria considerado parte forte como a própria autora diz), caracterizando uma sincope. Priolli  afirma de maneira correta, mas entra em contradição com sua teoria da contagem quarternária, que se fosse seguida a risca, não consideraria o último exemplo da foto como sincope, pois o terceiro tempo fraco não supriria o terceiro tempo também fraco!

Conclusão.

Considero que Priolli é um método extremamente didático e bom de se trabalhar em aulas, com exercécios bem colocados e distribuídos, mas apresenta erros, esses devem ser sempre acompanhados de outra fonte como o livro de teoria de Bohumil. É preocupante a construção de provas com base em Priolli, por conta do seu Eurocentrismo e contradição em relação a Sincopes e Acentos Métricos, o que poderia mesmo levar uma questão a ser anulada devido a duplicidade de respostas baseadas na autora. Dificilmente tais instituições conhecidas por seu conservadorismo mudariam sua bibliografia, mas acredito que outras instituições e mesmo músicos mais conscientes não precisam repetir o erro. Repito que o método e bem didático, mas é preciso atenção e cuidado para se trabalhar com o material de Priolli.

BIBLIOGRAFIA


MED, Bohumil. Teoria da Música. 7. ed. Brasília, DF: Musimed, 1996.
PRIOLLI, Maria Luisa de Mattos Priolli. Princípios básicos da Música para juventude. 51ª edição. Rio de Janeiro: Editora Casa Oliveira de Músicas LTDA, 2010.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
VASCONCELOS, Ary. Raízes da música popular brasileira. Rio de janeiro: Rio Fundo Ed., 1991.
LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.


 

Um comentário:

  1. excelente...precisa achar aquele dicionário musical de um certo padre que dizia que a música da capoeira é irritante, aspera e tende a extinção....nossa "cultura" musical está cheia desses lixos.....Parabéns pela sua preocupaçaõ.

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