sábado, 1 de março de 2014

A mentalidade da música medieval e o Canto Gregoriano




            A História da música ocidental como conhecemos hoje, tem inicio quando a igreja absorve alguns elementos da música grega e rejeita outros. Muitos costumes foram considerados impróprios pela igreja na intenção de desviar o número de convertidos, pois  tudo que ligasse ao passado pagão, deveria ser abolido. Em 313 o imperador Constantino deu proteção aos cristãos e a Igreja emergiu. As peças vocais feitas em grandes coros enchiam os ouvidos dos convertidos que estavam acostumados a uma longa tradição dos espetáculos pagãos. Em 387, Santo Agostinho escreveu um tratado da Música, em seis livros, que tratam dos princípios de métrica e ritmo, e um deles, o sexto trata da psicologia, a ética e a estética da música e do ritmo. Esses seriam debates importantes para começar definir o que era sagrado e profano na música. Para entendermos melhor como os homens dessa época definiam a música, destaco um trecho das confissões de Santo Agostinho, presente no livro a História da Música Ocidental de Donald J.Grout e Claude V.Palisca:



“Quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cânticos da vossa igreja nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música, mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço, de novo, a grande utilidade deste costume. Assim flutuo entre o perigo do prazer e os salutares benefícios que a experiência dos mostra. Portanto, sem proferir uma sentença irrevogável, inclino-me a aprovar o costume de cantar na igreja para que, pelos deleites do ouvido, o espírito, demasiado fraco, se eleve até aos afectos da piedade. Quando, às vezes, a música me sensibiliza mais do que as letras que se cantam, confesso, com dor, que pequei. Nestes casos, por castigo, preferia não ouvir cantar. Eis em que estado me encontro. Chorai comigo, chorai por mim, vós que praticais o bem no vosso interior, donde nascem as boas açções. Estas coisas, Senhor, não Vos podem impressionar, porque não as sentis. Porém, ó meu Senhor e meu Deus, olhais por mim, ouvi-me, vede-me compadecei-vos de mim e curai-me. Sob o Vosso olhar transformei-me para mim mesmo, num enigma que é a minha própria enfermidade.” (GROUT/PALISCA, 1988p.44)

Assim podemos observar como o homem da época podia ver a música, em que o mesmo se culpava de pecador apenas pelo fato de apreciar uma bela melodia, pois ainda se indagavam acerca do que seria pecado na música e o que seria realmente santo.

            É importante citar também como se deu o desenvolvimento do cantochão entre o século V e IX. O Cantochão foi a música religiosa em sua forma mais antiga, que era monofônica sem o acompanhamento de outros instrumentos, alguns eram expressos de modo antifônico, ou seja, os coros cantavam alternadamente, outros em responsórios, onde um coro cantava e o outro respondia com outro canto. Esses cantos foram coletados e organizados no século VI pelo papa Gregório, o Grande, posteriormente o canto é chamado de Gregoriano.


 Quando os povos do Norte e Ocidente da Europa se converteram ao cristianismo, houve um descolamento do centro musical da Europa em direção ao norte que se deu em parte, pela invasão dos muçulmanos na península Ibérica , concluída em 719. Missionários Irlandeses e Escoceses fundaram escolas em seus próprios territórios e em outras partes do continente como na Alemanha e Suíça. O cantochão recebe então diversas influências em outras terras, como por exemplo: ganhando mais saltos em sua melodia (o salto é a  capacidade de ir de uma nota grave a aguda sem passar pelas intermediárias, ou vice versa) devido a uma influência nórdica, na qual possibilitava criar novas melodias e novas formas de canto. A influência musical de outras terras agiu diretamente em cima da música cristã, fazendo com o cantochão se desenvolvesse ainda mais.

            Houve uma reforma no século V, iniciada por São Gregório Magno (Patrício romano, prefeito de Roma em 573, e aderiu em 575 à regra de São Bento). Foi eleito papa contra a própria vontade em 590. Essa reforma ficou conhecida como “reforma gregoriana”, uma afirmação da especificidade do canto romano ante liturgias orientais.
            As primeiras formas musicais seculares foram feitas pelos Goliardos, trovadores que existiram entre os séculos XI e XIV. Eles eram poetas músicos errantes, percorriam a Europa ocidental e eram estudantes de clérigos que vagavam pelas terras, pois eram pobres, e afastados da Igreja. Costumavam escrever em Latim, mas podiam também usar o francês e o alemão. Suas canções eram das mais variadas: eróticas, satíricas, anticlericais... Precisavam manter o anonimato por causa dos escândalos.

            Uma definição de Trovadores e Troveiros:
“Estas duas palavras tem o mesmo significado: descobridores e inventores; o termo troubadour (feminino, trobairitz) era usado no Sul da França, trouvère no Norte. Na Idade Média estas designações aplicavam-se, aparentemente, a quem quer que escrevesse ou compusesse quaisquer tipos de peças; o uso moderno, que as restringe a dois grupos específicos de músicos, é, por conseguinte, historicamente inexato.” (GROUT/PALISCA, 1988 p. 85)


            Mesmo diante de uma reforma muitas regiões conservaram suas própria liturgia, como a liturgia das Gálias (“galicana”) que ficou solidamente implantada nas províncias meridionais da França. Pepino, o Breve, esforça-se por impor o canto romano, trabalho esse continuado por seu filho Carlos Magno. A obra de pacificação e reunificação estava ligada à Igreja, e ele deveria assim garantir a unidade da Liturgia. Esse foi um “exemplo de um totalitarismo musical que implica na obrigação de fazer ´boa música.” (CANDE, 2001 p.192) Embora Carlos Magno fosse rígido em sua decisão de impor a unidade litúrgica, muitos cantos das Gálias conservaram suas particularidades, resistindo a imposição.

BIBLIOGRAFIA

CANDÉ, Roland de. História universal da música: volume 1. 2ª ed. São Paulo: Martins
Fontes, 2001.
GROUT, Donald J; PALISCA, Claude. História da música ocidental. Lisboa: Gradiva,
2007.
BENNETT, Roy. Uma breve história da música. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

4 comentários:

  1. Ola, gostaria de citar o seu texto, porém não possuo o sobrenome do autor. Poderiam me enviar?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá, não tenho o seu contato. Esse pequeno texto é parte de uma das versões da minha monografia, ele é muito breve mesmo (fica impossivel falar de tudo da música medieval em um único texto). Mas fico feliz de poder ajudar com algo.
      Meu nome completo Daniel Marcos Martins.

      Excluir