quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

O espaço e o sol, novas fronteiras para a música do cinema.



Vamos falar um pouco sobre a nova onda de composição para filmes espaciais, tomando como exemplo os filmes Gravity e Sunshine. Não quero dizer que ambos são pioneiros nessa nova forma de compor, mas resolvi primeiro falar da trilha sonora do filme Gravity e compara-lo a trilha de Sunshine por causa de suas influências..

A música de Gravity, segue a linha de alguns filmes poucos conhecidos como “Sunshine”, tomado por uma orquestra em volumes sonoros solenes, incisivos e quase religiosos.
Não deveria me estender muito em dizer que Sunshine é um ótimo filme espacial, com uma ótima trilha, e que poderia ser perfeito se não fosse o rumo que toma de sua metade para o final, Gravity, consegue trazer o mesmo clima tensão no espaço, mas fazendo o que seu primo solar não fez, mas vamos nos limitar apenas a comentar a trilha sonora, deixemos a crítica ao filme para especialistas na área.


Steven Price e uma nova música para a imensidão do espaço.

Nascido em 22 de Abril de 1977 em Nottingham, Inglaterra. Desde 1996 vem trabalhando com trilhas sonoras, em filmes como “Trojan Eddie” de 1996 ou documentários como “The Mysterious Death of Cleopatra de 2004. Dentre seus trabalhos mais conhecidos podemos citar “OSenhor dos Anéis: As duas Torres” em 2002, sua continuação “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei” em 2003, “BatmanBegins” em 2005. Atualmente como compositor da trilha sonora do filme “Gravity” e do curta “Aningaaq” que é um Spin Off (derivado) de Gravity, e também é o nome da música usada na mesma cena, em que acontece a transmissão de Ryan (interpretada por Sandra Bullock) com o esquimó.
A princípio, Steven achou que seria mais um trabalho comum, uma trilha sonora para um filme de ação e suspense, mas depois do seu encontro com o diretor Alfonso Cuarón, entendeu que deveria preencher os espaços de silêncio no espaço, então a trilha não deveria ser convencional e que deveria experimentar uma nova maneira de expressar as diferentes situações vividas no espaço. A ideia não era usar o óbvio, mas criar um clima para o drama emocional da personagem, Steven também viu ai uma boa oportunidade para experimentar algo novo, sem dúvidas foi uma experiência incrível para o compositor. Para Steven Price, fazer essa trilha foi um prazer, uma vez que ele já era viciado em leituras sobre as missões Apollo.

Steven Price, conta que ouviu muitas bandas e compositores para buscar inspirações para compor a trilha, que os espaços nas músicas foram mesmo inspirados nos primeiros álbuns do Pink Floyd (sem especificar quais, mas possivelmente álbuns como o “Obscureby Clouds”), a influência da música erudita veio de György Ligeti, e a banda canadense de post the rock “Godspeed you Black Emperor”. Steven procurou o contraste presente no filme, a beleza e o terror em contraponto, e que isso deveria ser transferido para a música também, a sensação de ser oprimido, e como as coisas fogem ao controle, para fazer o espectador sentir-se no lugar de Ryan.

Os batimentos presentes na música, é constante e acompanha a respiração, isso ajudaria a fazer uma ligação entre o público e a respiração de Ryan, certamente já foi discutido aqui no blog, sobre os efeitos da pulsação de uma música no corpo humano, no texto sobre Richard Wagner, e podem explicar melhor ao leitor sobre o que Steven Price buscou com a pulsação na sua música. Outros recursos ainda seriam usados como na música TheVoid que tem alguns sons de “ondas de rádio” para criar a expectativa no ouvinte da visão de dentro do capacete de Ryan, ou seja, Steven buscou a todo momento somente expressar as sensações e sentimentos da personagem Ryan, suas angústias e tristezas, a música não fez a trilha para o ambiente, mas apenas transcreve os sentimentos da personagem.
Steven reconhece que filmes como “Sunshine” (composição de John Murphy) e “Oblivion”, (composição de Anthony Gonzales, o grupo de música eletrônica M83 e Joseph Trapanese) foram os pioneiros nessa tentativa de se fazer uma música diferente e menos óbvia, e se diz feliz de fazer parte disso, poderíamos mesmo comparar e notar semelhanças no estilo da música de John Murphy, como a “Adagio em D menor” chamada no filme de “Surface of the Sun”, com sua estética também parecida com Ligeti e Godspeed. Talvez Steven não tenha conhecimento, mas poderemos observar a seguir que músicas desse tipo já haviam sido usadas em 2001, com Ligeti.



John Murphy e o calor do sol

Compositor inglês de trilhas sonoras, começou sua carreira na década de 1980, passando a trabalhar com diretores como Danny Boyle, Stephen Frears e Michael Mann. Sua música “Adagio em D menor” foi usada no filme Sunshine, em que é chamado de “The Surface of the Sun”. A música se encaixa a situação dramática do filme, em que toda tripulação se dirige em uma viagem sem volta para o sol, e fica marcado a frase de Cassie (interpretada por Rose Byrne): “Only dream I ever have... is it the surface of the sun? Everytime I shut my eyes... it's always the same. ” (O único sonho que sempre tenho...é a superficie do sol? Toda vez que fecho meus olhos... é sempre o mesmo).


Embora a música e composições de Murphy tenham influenciado Steven, elas possuem propósitos muito diferenciados no decorrer do filme. Surface of the Sun, conta com cordas (violinos, viola e cello), piano e percussão. Essa música foi remixada recebendo o nome de “Strobe” no filme Kick-Ass, recebe um instrumental mais denso, com bastante distorção. O Adagio chegou mesmo a parecer brevemente em Walking Dead (Episódio 5 “Wildfire”). Constantemente a música recebe novas versões e remix, muitas feitas por fãs da música. 

 


György Ligeti

György Ligeti é um dos compositores que mais se preocupa com a questão da recepção sonora, ele busca fazer uma ligação direta do som com o ouvinte, sem pressupostos ideológicos, utilizando a intuição em que mesmo pessoas com pouca experiência em ouvir detalhes de uma música, podem perceber também. Em suas obras Ligeti buscou forçar o ouvinte a rever sua postura diante da música, fazendo o mesmo ampliar sua percepção. Como exemplo temos trechos da música Lux Aeterna, Atmosphères, Aventures e do Requiem no filme “2001, uma odisseia no espaço”, de Stanley Kubrick. Ligeti sempre fez sua música voltada para o futuro, para o homem contemporâneo e para a cultura pré-tecnológica, outra característica nas músicas de Ligeti, é a sua busca por despertar no ouvinte a capacidade de multissensioralidade.


Ligeti constrói blocos sonoros, com sonoridades de duração longa, embora exista um ritmo e uma movimentação melódica, a ideia é que o conjunto não parece se mover, fica de forma estática, constante e eterna, essa sobreposição, faz o efeito em que todos se unam em um som maior, então muitas frequências não são ouvidas, mas estão ali, formando parte da densidade sonora, fazendo assim com que o som esteja presente e ausente ao mesmo tempo, devido a esse paradoxo Ligeti obrigaria o ouvinte a buscar outra postura perceptiva: não devemos usar apenas o ouvido para perceber a música, mas também o corpo. Ligeti então propõe “a escuta da percepção em todas as suas formas de comparecimento” (CAZNOK, 2003, p.134)


Outros músicos

Gostaria de destacar a cantora Katherine Ellis, que faz o vocal na música “Gravity”, fazendo uma bela interpretação dessa momento marcante do filme. Kahterine nasceu em 21 de Junho de 1965 em Bromley, Inglaterra, é uma cantora versátil e também compositora. Trabalha como cantora desde 1990 e como compositora desde 1998. Possui uma extensa discografia.
A produção também contou com a participação do Maestro Geoff Alexander; Orquestração de David Butterwort; Organista, Philip Collin; Vocal de Haley Glennie-Smith e Lisa Hannigan, Harmônica (vidro) de Alasdair Malloy; maestro de coro, Jenny O´Grady, Cellista Will Schofield; viola de Vicci Wardman e o coral Metro Voices
Gravity, a música mais marcante do filme de Alfonso Cuarón


Godspeed and the Black Emperor



Banda canadense de post rock que surgiu em 1994 com apenas três membros, chegando posteriormente a vinte membros. Utilizam os mais variados instrumentos, como guitarras, baixos, violino, metalofones, trompas, algumas músicas são acompanhadas de gravações. Incorporam o progressivo, ambiente e experimental, com melodias simples e geralmente constante, o que faz suas músicas trem geralmente uma longa duração.


Arvo Pärt

Arvo Pärt, é um compositor Estoniano. Compositor considerado um “progressivo” constantemente dialogando com o sistema atonal. Teve um grande hiato desde a década de 1970 voltando com um estilo totalmente novo, inspirado na sonoridade dos sinos e em uma música do passado, quase como uma música de outro plano, fora do tempo, sem época...

Pärt aderiu a Igreja ortodoxa russa e deixou a Estônia em 1980, fixando-se na Alemanha. Suas obras voltam-se constantemente para temas religiosos como “Tabula Rasa”, que busca refletir a inocência e a pureza, com notas de longa duração (notas brancas). A música é cercada por arpejos e escalas na brilhante sonoridade do violino, em ondas sonoras que vem e vão, simples e claras e sinos em um piano preparado.

Spiegel Im Spiegel

Arvo Pärt escreveu essa música pouco antes de ir embora da Estônia. A música é composta por um piano e uma viola (embora o original seja escrito para piano e violino), criando um clima solene dentro do minimalismo. A tradução do título da música seria “Espelho por espelhos”, criando planos paralelos e reflexão múltiplas de imagens, a repetição da melodia com diferentes nuancias representariam essas imagens repetidas por diversas vezes. (interpretação nossa).

A música está em Fa maior e em ritmo 6/4, foi utilizada diversas vezes, inclusive em filmes em 2013, como “About Time” de Richard Curtis ou “TheEast” de Zal Batmanglij. A música aparece no trailler do filme “Gravity”.






BIBLIOGRAFIA

CAZNOK, Yara Borges. Música: entre o audível e o visível. São Paulo: Editora UNESP, 2003.


FONTES








http://stefansmovies.wordpress.com/2011/04/20/adagio-in-d-minor/

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