quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Sala de Concerto: O Rei do Camarote


O Rei do Camarote
É isso ai, apresentaremos aqui os dez mandamentos para você ser o rei do camarote nas salas de concerto! Afinal quem não quer ser ele também? Boa música, dinheiro, champanhe, mulheres, iates e camarote vip!



ROUPAS

Gomez = Bom
A pessoa pra ir numa sala de concerto, não pode ir vestida de qualquer jeito, precisa estar requintada, mesmo que pareça um mordomo de festa. Roupas para a sala de concerto, devem ser no estilo formal e social, o melhor exemplo seria o senhor Gomez Addams, esse sim está bem vestido pronto para uma sala de concerto. Em resumo, seja um Gomez Addams, mas nem pense em ir vestido como um Tio Chico! Sala de concerto é lugar para agregar. E "ai" de você que aparecer de bermuda, mesmo vivendo em uma cidade quente como o Rio de Janeiro pois lá não pode entrar se trajar: “bermuda, short, top, camiseta sem manga, bem como chinelos”. Isso é coisa de pobre e não combina com o lugar!

Tio Chico = Ruim


CARRO
É bom que o Rei do Camarote tenha um carro, para o erudito ouvinte de música de concerto, ideal seria ter uma carruagem puxada a cavalos negros, que de preferência venham deixando uma trilha de fezes, mas infelizmente isso tudo fica no mundo das ideias, ou nas mentiras que o rei vai contar para as pessoas. Carruagem chama a atenção (muita mesmo! Principalmente se você estiver com uma fila de carros atrás de você), as mulheres eruditas gostam (eu acho)
Mas se você acha que o cavalo faz muita porcaria, o carro não está muito longe disso, apesar de não ser um animal vivo ele também faz "porcarias" e solta suas "flatulências" no ar. Indo a pé você também vai ter a vantagem de não pegar um engarrafamento, alias, a possibilidade de você pegar um engarrafamento de gente, é igual a possibilidade de você pegar um avião e cair em uma ilha vivo!
ps. o cavalo negro não tem qualquer ligação com o símbolo da Ferrari eim!


CAMAROTE
Os locais mais caros dentro do teatro! Também só pode ficar ali o rei do camarote. Em apresentações como a de Joshua Bell no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (reparem que o rei do camarote não vai a um Teatro, mas sim a um Theatro) a Frisa e o Camarote estavam custando 2.220 reais! Para os pobres é melhor ficar de olho na rua, pois Joshua Bell pode dar a louca de tocar vestido de mendigo, de novo! Mas para o rei do camarote, esse preço é trocado de padaria!
Galeria é pra pobre!
Quando a pessoa está na Galeria, ela é apenas mais um, mas quando ela está no Camarote, acaba ficando em evidência, porque o camarote é uma questão de Status, é um lugar que TODO MUNDO quer! E ali no camarote você gasta ao infinito e além!








NÃO DEVE APLAUDIR
É um pecado mortal você aplaudir fora de hora, aplaudir no fim dos movimentos, isso se você não for fulminado por olhares mortais vindos de onde? Sim do Camarote, pois quem fica na Galeria pouco entende dessas regras europeias e aplaude mesmo assim. Claro que um aplauso durante a música é chato, ou no seu final eminente, mas fazer o que? É como ir ver um filme no cinema, pode ter alguém bocejando, chorando ou até conversando do seu lado. Engraçado mesmo é a imposição de regras de aplauso. E antes que qualquer erudito se enfureça com a minha afirmação, devo mostrar um “compositorzinho” que falou sobre algo parecido, briguem com ele antes:
Carta de 3 de Julho de 1778, escrita em Paris:
“resolvi começar com dois violinos sozinhos, em piano, e por oito compassos apenas – nisto, de repente, um forte - de modo que os ouvintes, como eu esperava, fizeram ch...no momento do piano – e quando, súbito, estrondou o forte... escutar o forte e bater palmas foi uma coisa só.”

W.A. Mozart.
Pode aplaudir gente! eu gosto!

Como afirma Nikolaus Harnoncourt em seu livro “O discurso dos Sons”, o público hoje se interessa na execução da obra, e não nos detalhes da composição, ou seja, está mais interessado em ouvir o todo, para assim se tornar um consumidor de arte, de música, sem apreciar. Preso a regras criadas, talvez até mesmo seu interesse na sala de concerto seja mais por um status do que pela obra em si. Mozart não ficava chocado com os aplausos durante as execuções, na verdade era até esperado por ele como uma manifestação espontânea, em que mostrava ao compositor que sua obra havia sido compreendida.

AMIGOS MÚSICOS
Foto pro "face"
O rei do camarote precisa ter “amigos” músicos, mesmo que esses nunca o tenham visto na vida, o rei do camarote pode elogiar o trabalho do músico e trata-lo como um anjo caído do céu, pronto para tocar violino, um ser mágico que veio somente para trazer “boa música” a seus ouvidos. Pouco importa ao rei do camarote que esses músicos moram na baixada, são classe média ou gostam de rock, coisas que o rei do camarote despreza e critica. O rei do camarote pode falar um monte de asneiras sobre música, e não entender nada que está sendo tocado, mas com um amigo músico as habilidades e status de músico são transferidas ao rei, ou pelo menos ele acredita que seja.
As pessoas por bobeira, tem um pouco de inveja do rei do camarote.

CHAMPANHE
O rei do camarote poderá chamar de Champagne, mesmo que ele não saiba que esse é o nome de uma região no nordeste da França! Afinal, ele não vai ao Teatro, ele vai ao Theatro. Champanhe é Status, mas champanhe com fogo é supérfluo e cafona, além de ser algo perigoso para se fazer dentro de um Theatro (com TH).
Se cair na galeria, "pobrema"

FAMOSOS

Vamos agregar!
Agregar é importante! manda baixar a Euterpe, a Grega para agregar! Esse item é parecido com o item “amigos músicos”, mas é um nível quase divino, afinal, com gregos no seu camarote você vai bombar. Então o Rei do camarote deve optar sempre por Theatros que tem uma fachada Greco-Romana, pois só assim o grego agrega com facilidade.








MULHERES
Mulheres bonitas, mesmo que não seja aquela que está casada com o rei do camarote, não faz sentido estar no camarote com uma mulher “feia”, mas geralmente o rei do camarote tem dinheiro para as plásticas da sua mulher,  ele pode pagar os botox de sua senhora.
Isso só acontece quando ela bebe o Champanhe anterior

MÚSICA
Tem que tocar é música Clássica, mesmo que esse não seja o termo mais adequado, pois vai remeter a um período da música histórica. O rei do camarote não sabe disso e vai dizer sempre que é música clássica sim senhor! Aqueles que são um pouco mais esnobes dirão que é música erudita, pois afinal, se ele próprio é um erudito, então sua música também é erudita, pois é uma música com conteúdo que agrega! Falar mal de música popular também é um quesito para o rei do camarote! mesmo que os músicos que estejam tocando não concordem com isso!
Pausa para soneca! Como essas regrinhas dos eruditos me dão sono!
Tocar Chiquinha Gonzaga, Yamandu Costa e orquestra ou a bateria da mangueira pode ser muito complexo para o rei do camarote, uma vez que ali, naquele recinto só entra música de "alta qualidade", mesmo que ele esqueça que Chiquinha Gonzaga pode ser considerada popular, ou mesmo Tom Jobim... Acho que começa a complicar demais as barreiras do que o rei do camarote entende por popular e erudito, então é melhor para o rei do camarote apenas falar mal dessas "pontes" ou "misturas" com teorias de degeneração genética musical.

FACEBOOK
O rei do camarote precisa ter um Facebook, se você não tiver, você não tem identidade! Você precisa divulgar, mostrar e fazer invejinha nas pessoas, assim como criar eventos para mostrar que vai a um concerto e vai estar no camarote!

Quem não queria ser o rei do camarote de concerto? Muitos vão criticar, mas não ligue, é apenas inveja!

Sério! Agora vocês podem aplaudir, os eruditos deixam.
Considerações finais.
Parte desse post foi construído em cima de uma brincadeira com o novo meme da internet, o Rei do camarote, mas ele também mistura uma critica ao esnobismo exacerbado nas salas de concerto, afinal será que esse ambiente é realmente para todos?
Para quem não entendeu a brincadeira, então assista o maestro Mickey.


FONTES:
http://www.theatromunicipal.rj.gov.br/agosto.html

BIBLIOGRAFIA
HARNONCOURT, Nikolaus. O discurso dos sons: caminhos para uma nova compreensão musical. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998.

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