quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Faixa Por Faixa: Kanye West - My Beautiful Dark Twisted Fantasy

Eu lembro que durante minha fase inicial de formação musical eu estava sedento por metal. Qualquer coisa que fosse rápida, tivesse vocal vomitado e falasse sobre dragões transando ou sobre pessoas se socando e tivesse solos hiper sônicos no clímax do bulululululululu guitarrístico era a garota dos meus olhos.

Na foto: Imperador Patrício Musical devidamente trajado.
Então aí que reparei; Eu era um cara chato pra cacete, me achando um imperador patrício no meio de plebeus musicais, dando a todos cartilhas de bons modos do século XIX. Vi que eu não escutava nada além de metal, e por isso nunca consegui ter uma voz ativa ou sequer significativa em discussões culturais e intelectuais. E o pior de tudo: Não pegava mulher. Nenhuma mulher vai se amarrar no seu papo de quão foda você acha que aquele solo de guitarra foi. Acredite. Não vai. Nem mesmo que você tenha feito aquele solo. E foi aí que a ficha caiu: Cara, você precisa ser mais eclético. O que no início me pareceu um exercício completamente imbecil, se tornou uma coisa prazerosa e me beneficiou a longo prazo. Conforme descobri novos gêneros ou até mesmo revisitei gêneros pops, eu vi o quanto eu perdi esse tempo todo por me fechar na minha bolha da virgindade. Continuei sem pegar mulher, mas agora eu tinha realmente opiniões e era alguém mais culto.

Um desses gêneros que eu mais era crítico, com certeza era o rap. Eu sempre achei que o objetivo da música sempre fosse sobre o instrumental em um sentido que te passasse a mensagem sem a necessidade de se basear em vocalizações para isso, então na minha cabeça preconceituosa eu achava que o rap era um gênero carente e superficial, pois ele se baseia em batidas e samples mas que o vocal exerce completa autoridade (geralmente era sobre sexo, dinheiro ou os dois). E eu vi que estava errado. A medida que eu escutava artistas tanto da mídia (Kanye West e Tyler The Creator principalmente) e artistas do circuito underground brasileiro (um salve para o maníaco Patrick Horla), eu vi que o rap pode ser sim, cheio de cores e climas sem se basear necessariamente em rimas imbecis.



E My Beautiful Dark Twisted Fantasy é o melhor exemplo disso. É um dos melhores exemplos de como o rap pode ser bem produzido e pelo cara mais babaca da face da Terra; Kanye West.



O álbum é a viagem mais detalhista e protagonizada da atualidade, apresentando uma palheta de músicas que pintam essa gravura bizarra que você vê na capa do álbum. E o álbum todo pode se resumir a uma única palavra: Egotrip. O álbum é basicamente uma massagem no ego do artista, de maneira tão descarada e caricata que é o próprio Kanye West lhe dizendo; "Sim, esse sou eu e eu sou um babaca de marca maior.". Mas o importante aqui é como essa mensagem lhe é passada de maneira tão harmoniosa com a música, que o álbum acaba pegando uma proposta imbecil e tornando-a em uma proposta que acaba de virar um álbum conceitual. Sim. Um álbum conceitual sobre masturbação ególotra.

E é com essa coragem de ser sincero, que eu gostei do álbum. O que eu achei que seria outro álbum sobre "bitches, pussies and poppin' mothafuckas", acabou se transformando em uma proposta mais interessante do que um supergrupo de personalidades do rock progressivo poderia apresentar.

My Beautiful Dark Twisted Fantasy já começa bem. Ele faz o que muitos álbuns na atualidade esquecem: Uma música de introdução, porra! E é assim como a Dark Fantasy abre, com um poema como se fosse retirado de um livro de conto de fadas infantil que serve para que o ouvinte se ambiente e entenda: "Ficções malignas, vícios doentios... Então sentem-se crianças, fiquem quietinhos e escutem!". Depois de prender a atenção do ouvinte que ainda não está confiante sobre o álbum, ele te apresenta esse gancho completamente melódico e é aí que ele te dá o clima do álbum. E é aí que você nota o charme do álbum todo... Se você for um ouvinte safo o bastante, vai perceber que esse gancho "Can we get much higher", é um dos vários samples que colorem o álbum. (Aliás, você que é aquele tiozão chato que acha que só rock progressivo salva, sabia que isso é de uma música do Mike Oldfield com Jon Anderson? Poizé.)

A segunda faixa é completamente diferente da primeira, mas não de maneira que quebre a homogeneidade entre faixas. Mais relaxada, e com um sample hipnótico e psicodélico retirado direto dos anos 60 ao fundo junto com um conjunto de cordas, Gorgeous bota na mesa a falta de igualdade racial nos EUA enquanto trás de novo ao ouvinte outro gancho muito melódico. Essa faixa por mais que não seja o ponto alto do álbum, é muito interessante por apresentar uma guitarra ao fundo completamente Hendrixiana e uma mistura perfeita com rap.

E aqui, cavalheiros, adentramos na masturbação ególotra e descarada... Power. E com o perdão do trocadilho, essa música é uma powertrip fodida. Essa faixa já chega com os dois pés no peito auto proclamando importância e arrogância com rimas diretas e fortes. E assim que o primeiro verso acaba, aquele cara chato que só gosta de rock progressivo se mela todinho ao ouvir o sample de 21st Century Schizoid Man. Isso mesmo. É um sample da sua boy band de rock progressivo predileta, King Crimson. Pode xingar, pode espernear, pode chorar deliberadamente, mas você com certeza ficou curioso para ouvir aonde isso vai chegar.





E depois de tantas batidas pesadas, lindo coral e um sample de fazer o fã mais chato de progressivo se matar, o álbum chega no topo. All Of The Lights abre com uma instrumentação linda de piano e cordas, que dá um clima sensacional à música. E então a música se desenvolve, muito mais pop que as faixas anteriores e contando com nomes de peso como Rihanna. E o que eu achava que poderia ser o fiasco do álbum, acaba sendo um dos momentos mais altos do álbum.

Tintim na terra da putaria.
Mais afundo no tema do egocentrismo, Monster é uma música mais sombria que as anteriores e muito mais agressiva. Com um começo bem menos interessante que as anteriores, a faixa acaba surpreendendo além das expectativas e rende ao álbum uma das rimas mais icônicas, no alto da egotrip do cantor: "Have you ever had sex with a pharaoh? I put the pussy in a sarcophagus!".

E com um desenvolvimento muito mais interessante que seu início, conta com uma contribuição sensacional da Nicki Minaj que entre as rimas alterna de sotaque e alter egos. O que começa como um possível desastre, acaba se tornando em uma das melhores faixas do álbum inteiro.






So Appalled serve ainda mais para "escurecer" o álbum. É aqui que você percebe que álbum começa a ficar muito mais sombrio e sóbrio. Uma faixa que ainda continua muito bem produzida, mas que serve mais para guiar o ouvinte aonde Kanye West deseja.

Devil In A New Dress é uma faixa boa, mas de longe é a mais fraca do álbum. Por ser uma música sobre a ex-namorada do cantor (que é Amber Rose, uma atriz pornô), e um relacionamento muito conturbado, a faixa é bem mais calma, mas expressa um desejo absurdo sobre a mulher em questão. O ponto alto dessa música não são mais a rimas e os samples, mas o foco na linda melodia de guitarra.

Eu gosto muito da Runaway. As teclas simples e com notas repetitivas acabam dando vida à um sample de bateria e sintetizador em um tom mais grave. As freqüências graves e as teclas ao fundo servem como contraponto da melodia da voz. É uma melodia pop que não parece combinar e desarmoniosa com os samples darks e ela pega toda essa coisa pesada e transforma em uma linda progressão em arpeggios com cordas. A música mais atmosférica do álbum sem sombra de dúvida, e tira o ouvinte de um lugar estranho em que tudo é desarmonioso para um lugar onde dá luz a uma bonita progressão. É a minha faixa predileta do álbum, e a que eu considero mais bem produzida.

Está confortável nessa nuvem de sonhos e melodias celestias? Ótimo, porque agora Kanye West vai te tirar dessa nuvem e vai te levar para o inferno do relacionamento dele com uma atriz pornô. Sem sacanagem alguma, Hell Of A Life pinta um quadro do inferno dantesco produzido pelo Brasileirinhas. E com um sample gravíssimo e seco, a música pinta esse cenário caótico com a simples frase: "I think I just fell in love with a pornstar.". E com essa voadora no pescoço, a música mostra para você, masturbador compulsivo, que um relacionamento amoroso com uma pornstar é a pior coisa que você pode desejar para sua vida. Uma narrativa muito boa, recheada com baixaria, mostra um relacionamento extremamente abusivo. O refrão é outro show à parte, seguindo a mesmíssima melodia de Iron Man do Black Sabbath. É uma das minhas prediletas do álbum e eu acho que ela passa de maneira seca e real a sua mensagem.

Depois de um relacionamento fodido e bizarro, Blame Game te leva para o que sobrou desse inferno. Muito diferente da anterior, faz um constraste violento entre a euforia e agitação do relacionamento, com o fim do relacionamento, onde só restaram mágoas e raiva sincera. E com um sample retirado de uma parte do stand up do Chris Rock, fica bastante pesado já que Kanye West faz uma encenação como se a ex dele já estivesse tendo relacionamentos com outros, e a mesma responde que aprendeu os seus truques sujos com Kanye West (que afinal, o apelido dele é Yeezy). É nessa música que você percebe que a egotrip sugerida pelo álbum, é nada mais para preencher o vazio de algo. Estamos chegando numa conclusão curiosa!

Lost In The World fecha o álbum com uma senhora chave de ouro. As vozes com auto tune sem instrumentos ao fundo é muito parecido com o que King Crimson fez na abertura de Power To Believe. A música consegue captar toda a essência do álbum e amarra toda esse delírio de superioridade. Com rimas simples, mas muito pegajosas e feitas de opostos, essa música leva ao coração do álbum: Ela mostra que toda essa egotrip por mais pomposa e cheia fosse, ela acaba em um vazio e confusão protagonizada. E as últimas coisas que se escutam no álbum em Who Will Survive In America, são palmas fraquíssimas como se o álbum estivesse sendo apresentado para uma platéia de 6 pessoas no máximo.

Todos aqueles momentos que você ouviu durante o álbum e todas as rimas que massageavam o ego do cantor, toda aquela viagem sobre a auto afirmação que dá início à obra, vai se desconstruindo e moldando para um espectro muito mais frágil e marcante, mostrando que tudo aquilo foi mitificado afim de mascarar a fraqueza, mostrada aqui como um relacionamento turbulento.

Depois de escutar com cuidado o álbum e sem preconceitos, pude tirar que debaixo de toda aquela produção megalomaníaca aos moldes de um Rick Wakeman por exemplo, existe uma realidade mais tangível e frágil. Acaba que por fim, é a imaturidade emocional e uma carência que dão vida às fantasias exageradas e necessidade da auto afirmação tanto quanto artista como pessoa, pintando esse quadro de uma realidade desgostosa e falsa que o autor se colocou.

E é pela deconstrução que o álbum faz uma narrativa dinâmica e bem orientada instrumentalmente. Ele coloca o ouvinte em um território já conhecido, porém de uma maneira diferente e mostra que todo aquele cenário fantasioso partilha das mesmas semelhanças de um cenário falso de peça de teatro. E é pela sinceridade e egotrip destrutiva que eu tenho coragem de dizer que esse álbum é próximo da perfeição.

Um álbum muito bem produzido e com muitos samples bem encaixados que vai frustar qualquer fã chato de rock progressivo por ter tirado a música dele da elite e introduzir à plebe musical.

No final, todos nós somos pessoas frustradas procurando viver nossos vícios doentios e fantasias gananciosas.

5 Musas de 5 para essa viagem torta!



My Beautiful Dark Twisted Fantasy
Kanye West
Lançamento: 22 de novembro de 2010
Gravadora: Roc-a-Fella, Def Jam
Duração: 1:08:36


1. Dark Fantasy (feat. Nicki Minaj) - 4:41
2. Gorgeous (feat. Kid Cudi and Raekwon) - 5:58
3. Power - 4:52
4. All Of The Lights (intro) - 1:02
5. All Of The Lights (feat. Rihanna) - 5:00
6. Monster (feat. Bon Iver, Nicki Minaj, Rick Ross & Jay Z) - 6:19
7. So Appalled (feat. CyHi The Prynce, Jay Z, Pusha T, RZA & Swizz Beatz) - 6:38
8. Devil In A New Dress (feat. Rick Ross) - 5:52
9. Runaway (feat. Pusha T) - 9:08
10. Hell Of A Life - 5:28
11. Blame Game (feat. John Legend) - 7:50
12. Lost In The World (feat. Bon Iver) - 4:17
13. Who Will Survive In America - 1:38


Um comentário:

  1. Cara, genial. Que argumentos.
    Sem duvida, é um dos meus albums preferidos da vida.

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