sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Manifestação através da música.

Músicos na Praça Quinze
Foto: Rafael Soares

 
Depois de longos dias conseguimos empreender um trabalho de pesquisa. Estivemos nas manifestações do dia 20 e 30 de Junho de 2013, no Rio de Janeiro, fazendo um trabalho de campo bem especifico: registrar as músicas usadas nas manifestações de Junho.
Tivemos de gravar, separar e catalogar A pesquisa de campo foi gratificante, estar no meio dessas manifestações foi realmente uma experiência histórica.


Considerações iniciais.
Antes devemos considerar que houve uma enorme diferença das manifestações do dia 20 para o dia 30, pelo que pude observar tais mudanças se deram de forma gradativa, outras foram realmente bruscas. No dia 20 de Junho tivemos a maior manifestação no Rio de Janeiro, com aproximadamente 1 milhão de manifestantes. O dia foi embalado em ritmos que lembravam o carnaval, o clima mudou no dia 30, onde diminui-se o número de manifestantes, permanecendo somente aqueles mais engajados, também pude observar que no dia 20 ainda imperava a ideia de apartidarismo, onde bandeiras de partidos eram obrigada a serem abaixadas; no dia 30 de Junho as bandeiras de partido não foram mais reprimidas. No dia 30 as manifestações aconteceram durante todo o dia em grupos bem menores, e mais organizados, o grande espetáculo se deu durante toda a manifestação. No 20 a  riqueza musical estava nas manifestações culturais que aconteceram antes da partida da multidão, diversos estilos e grupos lado a lado. Notei também a presença de grupos organizados no dia 30, com estandartes tal como se faz nos blocos de carnaval no Rio de Janeiro, no dia 20 haviam grupos menores, mas eram abafados por um enorme grupo acompanhando um carro de som.
Frases curtas deveriam ser pronunciadas, na qual seriam repetidas, para melhor todos compreenderem e acompanharem, qualquer letra ou frase mais complexa não iria funcionar, como posso demonstrar na tentativa de se cantar a letra inteira de “Policia” da banda Titãs, automaticamente a letra é reduzida apenas a um trecho.
Escute o exemplo a seguir:

Gêneros musicais
Serão vários Gêneros, mas principalmente será cantado os Gritos de Torcida, sambas-enredo e marchinhas de carnaval, quando não, um outro ritmo apropriado e adaptado para a marchinha.
Veremos mais a frente uma diversidade imensa de estilos musicais como cantigas de roda, rock e funk.

Instrumentos
Ganzá
Uma presença maior dos instrumentos usados em marchinhas de carnaval: Surdo ou bumbo (em grande quantidade), caixa, repique, Trompete, Sax Alto, Trombone de Vara, Tantã (que é muito parecido com o atabaque), tamborim, prato e o ganzá.
Não vi nenhum pandeiro, mas acredito que havia algum, pois é um instrumento comum e portátil, assim como não vi o reco-reco, repique, agogô e nem a cuíca (essa eu apenas ouvi), e que provavelmente estavam em algum lugar da manifestação também.
Menos comuns: vi um violão, mas o músico estava afastado dos grandes grupos, e também um flautim de madeira (se tocava com flautim e tinha registro sonoro igual, mas era rústico sem sistema de chaves). Pude ver na manifestação do dia 13 de Julho, até mesmo uma flauta doce.

Ambiente sonoro
A música do dia 30 foi muito mais elaborada, com rápidas pontes de ligação de uma música na outra. Em relação a dinâmica musical, que confere a intensidade sonora: sempre tocado em forte ou fortíssimo, instrumentos com pouca potência são encobertos (como no caso de piccolos) prevalecendo os metais e a percussão.
São seis categorias: Marchinhas e Gritos de torcida, pronunciamentos, Dança de roda, Samba, Hino e Funk.

Aquecimento da bateria
A bateria pertence ao grupo “Nada deve parecer impossível de mudar” ao primeiro podemos ouvir o Ganzá fazendo o ritmo, junto com os outros instrumentos de percussão.

Estrutura das músicas e suas apropriações.
As apropriações ou “empréstimos”, é o processo de capturar formas já existentes e dar uma nova ressignificação, desde uma canção mudando sua letra, como a adaptação de blocos de carnaval em uma nova realidade, nesse caso a do protesto. Não será difícil observar elementos apropriados de outra situação, e me chamou muito a atenção a figura do “puxador” presente em todas manifestações e grupos; quando o grupo era desorganizado.Os grupos que eram formados naquele momento, qualquer um poderia ser o puxador, bastava se impor com a voz e oferecer uma boa proposta de marchinha a ser cantada, situação essa que o carro de som do dia 20 buscava tentar fazer, embora vaiado algumas vezes pela multidão ao tentar puxar músicas que eram desaprovadas .

No dia 30 com o bloco “Nada deve parecer impossível de mudar”, onde havia a presença de um puxador que organizava as músicas que seriam tocadas e cantadas, ele também organizava a coreografia.
O puxador do samba é mais do que um cantor: é um animador, que tem a obrigação de manter elevado o moral da escola. É dele que partem os gritos de guerra que, ainda na concentração, antes do desfile, acendem os ânimos e contagiam todos os integrantes.
Observemos a definição de puxador do site “constelar”:
Alguns puxadores são verdadeiros especialistas em apelos emocionais, aproveitando o aquecimento na concentração para trazer a lembrança das raízes e das tradições da escola. Sua função lembra um pouco a dos líderes militares capazes de inflamar a tropa, apelando para o patriotismo e o brio dos soldados. E, em verdade, o desfile é visto como uma batalha, razão pela qual hesitamos em atribuir a esta figura os tradicionais significadores dos cantores: Touro e seu regente, Vênus. O puxador de samba é um clarim de guerra. É Áries, aquele que sai na frente guiando a escola.”
A função do puxador no dia das manifestações é exatamente a mesma das marchinhas e escolas de samba, ou seja, a apropriação utilizou os mesmos mecanismos para organizar a manifestação de Junho. Veremos a seguir as músicas utilizadas, suas apropriações e ressignificações, e ainda, a mudança das mesmas conforma a situação e o dia.
A seguir o áudio de algumas demonstrações de como o puxador propõe o tema a ser cantado:
https://soundcloud.com/euterpe-despeda-ada/puxadas-e-cantos

Conceito de Representação de Chartier

O conceito é construído com a contribuição de vários autores, tendo como base os trabalhos de Bourdieu (1930-2002). Entende-se as representações como a classificação e divisão que organizam a compreensão do mundo social. As representações serão variáveis, dependendo do interesse dos grupos que as forjam. As representações não serão neutras, elas são produzidas de forma estratégica e prática, com tendência a imposição de uma autoridade buscando legitimar as escolhas. Como podemos ver em alguns cantos como “Cabral é ditador”, parte dai uma estratégia de apontar Cabral como um governador autoritário, é feita uma imposição para legitimar essa afirmação. Peço que o leitor entenda o conceito, independente se Cabral é realmente um ditador ou não (como eu acredito que seja).
Roger Chartier
Os bens culturais serão sempre produzido segundo ordens, regras e convenções, com hierarquias especificas, cria-se assim uma dependência em relação as regras, mas a obra representada (principalmente a representação coletiva) escapa a essas dependências por causa dos múltiplos sujeitos envolvidos,e eles criam suas próprias regras, suas hierarquias. Para exemplificar melhor, pude observar uma Cantiga de roda que foi criada por pessoas que não se conheciam (apenas um pequeno grupo estava junto), naquele exato momento buscou se criar regras, com os músicos ao centro, as pessoas de mãos dadas em volta, repetindo uma cantiga conhecida, por hora haviam duas cantigas acontecendo em lados opostos da roda, pois dois núcleos tentavam organizar as regras e controlar o “caos” que acabava de ser criado. No dia 30 o bloco “Nada deve parecer impossível de Mudar” era um grupo organizado, com regras e hierarquias, onde um músico determinava a ordem e quais músicas deveriam ser tocadas.

O Trabalho.
Foi um trabalho de campo realizado por Daniel MM e Tiago Malta, onde estivemos gravando as manifestações musicais presentes nos protestos. A análise foi realizada por Daniel MM, utilizando o conceito de Apropriação e Representação. Como não se trata de um trabalho acadêmico, dispensei certos formalismos e regras, e utilizei outros como o uso de [] nas palavras que não ficaram claras na audição, podendo essas a estarem erradas. A intenção é agregar o conhecimento até para ajudar na pesquisa futura por outros músicos. O trabalho engloba duas manifestações que ocorreram em Junho de 2013, uma no dia 20 na Candelária e ao longo da Presidente Vargas, e a outra no dia 30 na praça Sans Pena.

É um grupo apartidário, que esteve presente na manifestação do dia 30 de junho. Se definem como uma ferramenta de agitação nas manifestações, utilizam um bloco para agitar as pessoas nos embalos de músicas conhecidas e ritmos populares.
 
Bloco na noite do dia 20

"Desconfiai do mais trivial,
na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente:
não aceiteis o que é de hábito como coisa natural,
pois em tempo de desordem sangrenta,
de confusão organizada,
de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada,
nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."
Bertolt Brecht


1 Marchinhas e Gritos de Torcida
Alerta Juventude
(Alerta a Juventude/ a luta é que muda/ a Globo só Ilude / Quem são vocês?/ Somos estudantes/ [Não] é estudante / Sou estudante / Mais uma vez / Sou estudante eu sou / Eu quero estudar / E o passe livre conquistar / [A nossa luta]))
Um dos vários ataques a rede Globo, conhecida pela manipulação das informações em seus telejornais.
Sobre as passagens, no dia 18 de Junho, onde “Desde que houve o anúncio do aumento na passagem dos ônibus urbanos no Rio de Janeiro, de R$ 2,75 para R$ 2,95, o grupo conhecido como MPL tem realizado manifestações de repúdio ao aumento, engrossadas com outras reivindicações que foram sendo agregadas de maneira espontânea ao longo das últimas duas semanas.” (site da Folha.uol)
No dia 19 houve a suspensão do aumento da passagem. “´Nós vamos suspender o aumento de vinte centavos concedido agora no início de junho na tarifa de ônibus´, disse Paes.” (noticiasdobrasil.com.br) as reivindicações continuaram mesmo depois da suspensão do aumento, ação essa que para muitos foi vista como uma tentativa de desmobilizar o protesto do dia 20.
no dia 23 o MPL (Movimento Passe livre) continuou defendendo a proposta de tarifa zero no transporte público, ‘’Nesse sentido gostaríamos de conhecer o posicionamento da presidenta sobre a tarifa zero no transporte público e sobre a PEC 90/11, que inclui o transporte no rol dos direitos sociais do artigo 6o da Constituição Federal.’’ (portugues.rfi.fr) Cada região do Rio reivindicou suas particularidades, mas com o passe livre para todos estudantes como pauta em comum. Em Rio das Ostras “Eles cantam palavras de ordem contra o monopólio da Viação 1001 e defendem o passe livre para estudantes.” (g1.globo.com)
https://soundcloud.com/euterpe-despeda-ada/alerta-juventude-ufrj

A Nossa luta
(A nossa luta unificou ela essa é uma luta de todo trabalhador)

Da Copa eu abro mão
(Da Copa eu abro mão/ Eu quero dinheiro pra saúde e educação)
Todos fazem piada sobre o “Estádio de primeiro mundo”, pois agora só falta construir uma cidade de primeiro mundo a volta dele. Realmente é revoltante ver tanto dinheiro e empenho voltado para o interesse de sediar uma copa enquanto os Hospitais não tem condição de funcionar direito e professores ganham péssimos salários.
“Tomando por base só essa despesa, sediar o torneio parece uma fria - afinal, daria para turbinar áreas como saúde, habitação e educação (e ainda movimentar a economia) se não fosse preciso gastar uma grana modernizando estádios, por exemplo. “ (planetasustentavel.abril.com)
“O grupo protesta contra os gastos excessivos nas copas das Confederações e do Mundo e defendem a aplicação do recursos na saúde, educação e no transporte público.” (agenciabrasil.ebc.com.br)
Jérôme Valcke
O secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke disse: "A final da Copa das Confederações vai acontecer no Rio e a Copa do Mundo vai ser jogada no Brasil. Não há plano b, e não recebemos oferta de outros países para substituir a sede do evento". (filha.uol.com.br)


Cabral é ditador
(Cabral é ditador / Cabral é ditador / Cabral é ditador/ o)
Lembrando que manifestações feitas nos anos anteriores, como a dos professores e dos bombeiros, foram duramente reprimidas a mando do Governador Sérgio Cabral e a recente retirada dos Índios da aldeia Maracanã . Ai estaria um dos motivos para chamar Cabral de ditador. A seguir sobre o ocorrido com os professores em 2009:
Hoje, dia 08/09, o movimento dos professores da rede estadual do Rio e Janeiro foi atacado por brutal repressão policial em seu terceiro dia da greve. Dezenas de professores, jornalistas e estudantes saíram feridos nesta tentativa de controlar pela via das balas de borracha a resistência ao plano do governador Sérgio Cabral (PMDB) de jogar nas costas dos trabalhadores e da população os impactos da crise econômica.” (ler-qi.org)
Sátira com o Governador Sérgio Cabral
Em 2013
“A organização Justiça Global, dedicada à defesa dos direitos humanos, denunciou à Organização das Nações Unidas (ONU) a Polícia Militar (PM) fluminense pela maneira como atuou na desocupação do antigo Museu do Índio, na última sexta-feira (22)” (ebc.com.br)
É interessante observar que essa mesma marchinha sofrerá apropriações em diversas ocasiões, tudo vai depender do interesse do grupo que se apropria da melodia e da ocasião. 

Educação chegou
(Educação chegou/ Educação chegou/ Educação chegou/ o)
Claro exemplo de apropriação, feita por um grupo de professores, a letra foi mudada de acordo com a função e intenção do grupo. O acompanhamento será feito com o Surdo.


(Bombeiro voltou/ Bombeiro voltou/ Bombeiro voltou/ o)
27 mil no protesto dos bombeiros
foto: blogdarenata.com
Apropriação feita por um grupo de familiares dos bombeiros que estavam presentes no dia vinte. Assim como em “Educação chegou” o grupo se apropria do mais conhecido “Cabral é ditador”
Em 2012 a Policia Civil, Militar e Bombeiros decretaram greve no Rio de Janeiro, ainda naquele mesmo anos 13 bombeiros foram expulsos da corporação e encarcerados em Bangu 1.
Mais uma vez o BOPE foi acionado por Cabral para resolver seus “problemas





Vem pra Rua vem
Marchinha que evoca as pessoas a virem para a rua, sempre era cantada quando passavam por prédios residenciais; nesse momento os moradores acenavam, ou ascendiam e apagavam a luz, geralmente nesse momento outra marchinha era cantada com a frase “quem apoia ascende a luz”.

Ei Cabral, vai tomar no cu
(Ei Cabral/ vai tomar no cu)
Embora seja a versão mais comum, ela ainda sofre uma variação. (Ei Cabral / Vergonha nacional)
Nessa versão é possível ouvir uma bateria, com pratos de ataque e contratempo. Não pude ter um contato visual para confirmar.
https://soundcloud.com/euterpe-despeda-ada/ei-cabral-vai-tomar-no-c-e

A verdade é dura, a rede Globo apoiou a ditadura
(A verdade é dura / A rede Globo apoiou a ditadura)
Durante a ditadura a Globo apoiou a ditadura fazendo vista as torturas e crimes cometidos pelos militares, e ainda promoveu programas de auditório chamado “Jovem Guarda”, na intenção de afastar as atenções das lutas politicas no país. Os escândalos envolvendo sua criação desde a Time-Life, quando Roberto Marinho se associa ilegalmente ao grupo estrangeiro indo contra as leis do país até a sonegação de impostos descobertos em 2013. A Globo favoreceu a ditadura em 1964, manipulando noticias de forma favorável a ditadura militar, como acobertar o escândalo do Riocentro, ela também lançou falsas notícias sobre o assassinato de Vladimir Herzog.
O melhor documentário sobre a Globo desde a sua criação e envolvimento com a ditadura foi o “Além do Cidadão Kane” produzido pela BBC de Londres e proibido no Brasil em 1993.

Protestos em Frente a Rede Globo de São Paulo
“Um grupo de manifestantes que participaram do protesto em frente à Rede Globo em São Paulo, na noite desta quinta-feira, 11, Dia Nacional de Luta, mudou o nome da ponte estaiada da marginal Pinheiros de Otávio Frias de Oliveira para jornalista Vladimir Herzog. Vlado, como era conhecido, foi assassinado sob tortura no DOI-Codi (centro de tortura do Exército) paulista, em 25 de outubro de 1975.” (http://sintrajud-sp.jusbrasil.com.br)
Com protestos em frente a Rede Globo no Rio de Janeiro

PM é a vergonha do Brasil
(Puta que pariu / essa PM é a vergonha do Brasil)
Em momento de tensão quando bombas começaram a explodir e os confrontos se iniciam, o canto é o de revolta, principalmente contra a PM por sua truculência e falta de preparo.

Quero saúde, educação.
(Quero saúde / educação/ que se dane se Brasil for campeão)
A critica as copas das confederações que estavam acontecendo no Brasil, onde a final foi no dia 30 de Junho, no Maracanã com Brasil campeão. Novamente lembrando que o país tem regiões onde falta necessidades básicas como esgoto e água.

Sem Vandalismo
(Sem Vandalismo)
Durante os protestos houveram atos de depredação, assunto que foi polêmico pois algumas pessoas eram consideradas vândalas pela TV e por parte dos manifestantes, muitos influenciados pelo julgamento que a TV fazia, tentando incriminar quem depredava. O assunto deixou todos muito divididos, pois de um lado parte dos manifestantes queriam uma manifestação pacífica e do outro, os rotulados “Vândalos” tinha como sua forma de protesto a depredação de patrimônios públicos e simbólicos. Para piorar a situação dos segundos, saqueadores se aproveitavam da situação para roubar bancos e objetos de lojas, o que acabava sendo negativo para esse grupo mais radical; prontamente a televisão focou bastante nesses atos como forma de tirar a legitimidade das manifestações. Criou-se um grito de “Sem vandalismo” que foi prontamente respondido dias depois por uma apropriação e representação contrária de “Sem moralismo”.

Você Fardado
(você fardado/ também é estourado)
Em grito para a policia, mostrando que os mesmos também são explorados pelo governo. Em fevereiro de 2012 houve greve da Polícia Militar. muito comum ser cantado como (você fardado/ também é explorado)
“Responsável pelo patrulhamento ostensivo das ruas do Rio, a Polícia Militar foi a corporação que mais radicalizou na greve, entre as forças de Segurança Pública que decidiram na noite desta quinta-feira (8) pela paralisação no Estado. Os PMs optaram ficar em greve aquartelados em seus batalhões, sem sair para nenhuma ocorrência.” (ultimosegundo.ig.com.br)

Ei Fifa
(Ei Fifa / paga minha tarifa)
Em relação ainda as tarifas de ônibus e os gastos da Fifa. O presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Joseph Blatter declarou que os gastos bilionários do governo brasileiro não eram problema da Fifa.

Sai do chão
Impossível identificar qual é a original, pois existem muitas versões que se adaptam a ocasião. Basicamente essa marchinha tem apenas o final dela modificado.
(Sai do chão/ Sai do chão/ quem …)
As Ressignificações serão diversas, quando feita pelo grupo de professores e educadores será (Sai do chão/ Sai do chão/ quem defende a educação).
No dia 30 a versão foi voltada a situação das remoções forçadas a volta do Maracanã durante sua reforma, incluindo a remoção forçada dos Índios.
Protesto na Maré
Foto: Márcio Luiz Rosa
(Sai do chão/ Sai do chão/ quem é contra a remoção).
“´Acho que usaram o Maracanã como pretexto para nos expulsar de lá. Talvez não quisessem que os torcedores estrangeiros vissem uma favela assim, tão de perto´, analisa a dona de casa Cynthia Mattos, 19 anos, que tem ressalvas ao novo local de moradia.” (mg.superesportes.com.br)
Também foi feita uma versão para quando o chamado “Caveirão” do BOPE passou na rua ao lado, onde cantaram (Sai do chão/ Sai do chão / quem é contra o caveirão)


Piada de Salão
(É ou não é/ Piada de Salão / tem dinheiro pra estádio mas não tem pra educação.)
É a uma apropriação da marchinha de carnaval “piada de salão” Onde no original se canta (É ou não é Se acham que não é/ Então não conto não. )

Ah, Uh, Sérgio Cabral apoiou Feliciano.
(Ah, Uh / Sérgio Cabral apoiou Feliciano)
Feliciano e Cabral
Uma versão de um conhecido grito de torcida do Corinthians, (Doutor eu não me engano quem tem dentinho não precisa de Adriano.), o grito vem da Marchinha “Coração Corinthiano”.
Feliciano é o polêmico presidente da comissão dos direitos humanos e minorias, acusado de homofobia e racismo. 



2 Pronunciamentos
Lideres/ puxadores, fazem seus pronunciamentos. Geralmente o pronunciamento é feito pelo sistema chamado de "microfone humano" onde um fala e os outros em volta repetem para os demais, em alguns casos existe o uso de um megafone.

O microfone humano nasce com o movimento  “Occupy Wall Street” em Nova Iorque no dia 17 de setembro de 2011, uma lei não permitia o uso amplificado de som em lugares públicos sem uma autorização prévia da prefeitura
" o microfone humano é uma técnica que corrobora a natureza plural do movimento e ajuda a levar o protesto adiante." - Casey Selwyn

Pronunciamento da liderança em frente ao IFCS
É feito um pronunciamento da liderança no Largo de São Francisco em frente ao IFCS, lembrando todos de sua luta e encorajando os demais, se estabelece assim uma organização, com um porta-voz.
Igreja São Francisco de Paula
Adoração do Santíssimo sacramento abençoando os jovens nas ruas, pouco antes de começar o movimento da manifestação.
Pronunciamento do Grupo Afro descendentes (se auto intitulavam “Negros”)
Falam dos pobres de rua, e da opressão que os negros ainda sofrem. Não consegui identificar exatamente qual era esse grupo, mas eram organizados e pareciam fazer parte de alguma instituição.

3 Dança de Roda


Candelária dia 20
Foto: Tomaz Silva/ABR
Danças de roda, que são danças em circulo e que não tem coreografia, a ciranda seria uma dança de roda de domínio infntil, mas que existem adultas no Norte, em Goiás, São Paulo e Minas.
As danças se enquadram em dois tipos fundamentais: Formação em Roda e formação em fileiras opostas.
1 Formação em roda: com ou sem solistas ao centro, são danças de origem portuguesa, as danças de roda que possuem as umbigadas são as que tem cunho africano. A umbigada poderá ser de três tipos: real, estilizada ou substituída por um elemento que tenha a mesma função. São danças que farão parte de um Batuque ou Samba.
2 Formação em fileiras opostas: danças de origem ameríndia.

A dança de Roda ocorreu na  Candelária no dia 20, tive a felicidade de poder estar no centro da Ciranda e fazer esse ótimo registro.

Paz Liberdade amor e liberdade
(Paz, liberdade, amor e liberdade)

Vem pra Ciranda
(Vem pra Ciranda
Com entrega de flores as pessoas e uma aceleração do ritmo, a construção da ciranda vem com uma resposta
(Vem pra Ciranda/ pra alegria / Vem pra Ciranda / Pro amor / Vem pra Ciranda / Para a Roda)

Cirandeiro
(Ó cirandeiro, ó cirandeiro, ó
A pedra do teu anel
Brilha mais do que o sol
Essa ciranda não é minha só, ela é de todos nós")
Música de Luiz Gonzaga, onde foi escolhido um trecho e depois alternado com outro da mesma canção.

Minha ciranda
(Minha ciranda não é minha só
É de todos nós, é de todos nós
A melodia principal quem dirá
É a primeira voz, é a primeira voz
Pra se dançar ciranda
juntamos mão com mão
formando uma roda
cantando uma canção.)
Música de Capiba, também não foi modificada.

Força da Paz
(Força da Paz
Cresça sempre, sempre mais.
Reina a Paz, acabem as fronteiras.
Nós somos um.
Amor, amor, amor, amor, amor.
Essa mensagem é do amor.
Ame o próximo como a ti mesmo.
Isso é o amor.)
Música do Grupo “Novo Quilombo”, que foi o processo de união de integrantes da banda “Quilombo” e da banda “Mensageiros”. O grupo é voltado para o Estilo Reggae.

Versos de um manifestante.
Durante a apresentação musical um manifestante usando a bandeira do Brasil como capa, recitou alguns versos improvisados.

4 Samba
Candelária
Foto: Carlos Ivan

O Batuque é proveniente de Angola ou do Congo, também dançam em roda, onde no centro fica um dançarino ou em pares. O batuque foi utilizado como nome genérico para todo tipo de dança que utilizasse a percussão.
O Samba, que vem de semba, designação aficana para umbigada (sempre ligada ao Batuque), estendeu-se pelos bailes populares com outros nomes como "pagode", "forró" etc. As danças que levaram o nome de Samba, ficaram mais conhecidas na Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo.
dos Morros cariocas nasceu o Samba Urbano carioca, que se difere do samba baiano.
Samba de enredo,  um subgênero surgido na década de 1930, feito para os desfiles das escolas de samba.

Foi criada por Silas de Oliveira para a escola de samba Império Serrano em 1964.

Composta por André Filho e arranjada por Silva Sobreira para o Carnaval de 1935, conhecida hoje como um dos hinos da cidade do Rio de Janeiro.
O audio segue com “Vem pra Rua vem”

Música de Neguinho da Beija Flor, ela recebe uma pequena mudança no final, no lugar de “Mengo” se canta “O Maracá é nosso” que é um conhecido grito de torcida no Rio de Janeiro.

5 Hino
O inicio o Hino Nacional Brasileiro era mais cantado, principalmente na fase em que se repudiava os partidos. Prevalecia a ideia de cara pintada (imagem apropriada dos caras pintadas da época Collor)
“Ficou conhecido no Brasil inteiro, durante o início da década de 90, o movimento dos caras-pintadas“, que consistiu em multidões de jovens, adolescentes em sua maioria, que saíram às ruas de todo o país com os rostos pintados em protesto devido aos acontecimentos dramáticos que vinham abalando o governo do então presidente Fernando Collor de Mello.” (infoescola.com)

A bandeira e o hino nacional foram menos usados depois, pois segundo alguns, remetia a uma ideia ufanista quase militar. Foi comentado até mesmo e possibilidade de um golpe militar e como esses estavam implantando na mentalidade dos manifestantes esse ideal nacionalista.
“Cantar o hino nacional e propor a extinção de partidos políticos nos recentes protestos, são uns dos exemplos usados pela atual esquerda para identificar o que seria um possível golpe de estado no Brasil.” (marcoaureliodeca.com.br)
O “movimento cara pintada” responde
“Movimento Caras Pintadas peço á todos seus filiados e simpatizantes não seguir orientação e conchave Partidário de nenhum partido,vamos está aonde o povo Brasileiro estiver,com trio-Élétrico ou não, somos independentes e livres para externar á nossa indignação contra á corrupção existente no Brasil!” (movimentoscaraspintadas.blogspot.com)

6 Funk
Tivemos Funk nas manifestações, alguns acabaram sendo adaptados ao ritmo da marchinha, embora fosse presente na batida o ritmo funk, também houve a mudança de algumas letras. O grupo “Nada deve parecer impossível de Mudar” trouxe uma série de músicas do estilo para as ruas, em uma rápida entrevista que pude fazer com um dos músicos, me foi esclarecido que a ideia era mostrar que uma das culturas marcantes do povo é o Funk, principalmente quando falamos de cultura carioca.
A seguir uma série de Funks feitas antes em caráter de ensaio pelo grupo.

de MC Júnior e Leonardo. A principio não ouvi nenhuma apropriação da música. A música fala das diversas regiões do Rio de Janeiro onde tem o baile funk.
MC Júnior e Leonardo

De MC Batata, ficou original apenas no instrumental, na hora que era cantado foi adaptada a letra, na qual chamei de “Ei Eike fora do maracá” no lugar do refrão “É sim, lá em Acari”
Ei Eike, fora do Maracá
(Ei Eike/ Fora do Maracá)
essa é uma apropriação do Rap “Feira de Acari” onde ela rola de forma instrumental e no refrão se canta. Interessante observar que o nome de Eike Batista é pronunciado de forma diferente, normalmente se pronuncia da forma como lê, aqui soara como “Aiki”.

De Cidinho e Doca, falando dos problemas e violência na favela, esse e outros funks da dupla ajudou a divulgar e ascender o estilo no Rio de Janeiro.

Também dos conhecidos Cidinho e Doca, a música foi relembrada com o filme Tropa de Elite.
Cidinho e Doca

Qual a diferença entre o Cabral e o Eike

(Qual a diferença entre o Cabral e o Eike? Um acha que é Rei, o outro acha que é Sheik)

A relação entre Cabral e Eike Batista tem longo tempo, mas vou destacara apenas alguns poucos fatos, como em 2011 quando Eike bancou os gastos de campanha de Sérgio Cabral (PMDB) e assumiu o papel de patrocinador de programas usados como vitrine eleitoral do Estado.
"´Cabral e Eike têm uma relação nebulosa, em que o público se mistura muito com o privado´, acusa o deputado Marcelo Freixo (PSOL).” […] “Sobre o empréstimo do avião a Cabral, Eike afirmou: ´Sou livre para selecionar minhas amizades. (...) Faço tudo com dinheiro do meu bolso e me orgulho disso´.” (1.folha.uol)
A música é uma apropriação do “Rap da Diferença” de MC Dollores e MC Marquinhos. (Qual a diferença entre o Charme e o Funk? Um anda bonito e o outro elegante)

Cabral queria que você
(Cabral queria que você / Cabral queria que você / Investisse na educação e esquecesse a UPP)
As Unidades de Policia Pacificadora que foram implantadas nas favelas do Rio de Janeiro, a intenção era “pacificar” esses lugares e expulsar os traficantes. Mas...
“Mesmo com UPP, tráfico movimentava R$ 6 milhões na Rocinha” (noticias.terra.com.br)
“Mesmo com UPP, bandidos fecham comércio na Mangueira” (veja.abril.com.br)
“Mesmo com UPP turista alemão é baleado na Rocinha” (blogdopavulo.blogspot.com.br)
Além de parecer não dar os resultados esperados, o custo para manter a unidade é alto.
“A partir de 2014, quando as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) contarão com efetivo de 12 mil policiais, o custo anual da pacificação deverá ser de, no mínimo, R$ 720 milhões.” (noticias.r7.com)
A música é uma apropriação do "Rap do Amor" de MC Vinícius e Andinho.
MC Vinícius e Andinho

Momento Maré
Todos os presentes fazem um minuto de silêncio as vitimas da Maré, toda manifestação estava parada e mais da metade permaneceu em silêncio, se pode ouvir ao longe ainda o som dos manifestantes do final que ainda não haviam se ligado no que havia acontecido, a frase “Maré resiste” vem em efeito de onda vindo do fundo. Nesse momento todos ficaram sentados.
Foram feitas as reivindicações, que posso classificar como “pronunciamento”. O primeiro áudio é finalizado com a música “Domingo eu vou Maracanã”

Maré Resiste
Com coreografia, quanto todos estão agachados, em seguida levantam “O Rio vai parar” com um conhecido grito de torcida.


Complexo da Maré
Considerações finais
A música sempre vai sofrer apropriações e novamente ser representada com um novo significado. Os protestos se configuram por suas mudanças rápidas e reivindicações diversas, a cada momento surgirá um novo modelo mais ou menos criativo. No dia 13 de Julho, no casamento da neta de Jacob Barata pude observar novos tipos de marchinhas, algumas muito hilárias. Nessas manifestações a melhor forma de expressar e fazer o povo se sentir unido é através da música, principio esse que já foi explorado por Getúlio Vargas, onde cantar em uníssono uma canção, fazia com que todos sentissem parte de uma unidade, e assim funcionará os cantos nos protestos, com várias vozes juntas se fazendo ouvir como uma.



FONTES [todos acessados em 19/07/2013]

http://www.portugues.rfi.fr/brasil/20130624-integrantes-do-movimento-passe-livre-devem-se-reunir-com-dilma-nesta-segunda-feira
http://www1.folha.uol.com.br/poder/934936-eike-batista-da-r-139-mi-para-projetos-de-sergio-cabral-no-rj.shtml
http://www.mg.superesportes.com.br/app/noticias/campeonatos/copa-das-confederacoes/copa2013-noticias/1,991,19,510/2013/06/30/noticia,46141/moradores-removidos-de-favela-proxima-ao-maracana-mostram-satisfacao.shtml
http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/gasto-com-copa-do-mundo-nao-e-problema-da-fifa-diz-blatter
http://pt.wikiquote.org/wiki/Gritos_de_torcida
http://freespeechdebate.com/pt/case_pt_br/o-microfone-humano/

BIBLIOGRAFIA

CARVALHO, Francismar Alex Lopes de. O conceito de representações coletivas segundo Roger Chartier. Diálogos, DHI/PPH/UEM, v. 9, n.1, p. 143-165, 2005
GUERRA-PEIXE, César. Estudos de Folclore e música popular urbana; organização, introdução e notas de Samuel Araújo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
ALVARENGA, Oneida. Música popular brasileira. 2 ed. São Paulo: Duas Cidades, 1982.

ONDE ESTIVEMOS
Palestra ministrada por Daniel MM na faculdade FEUC, sobre as músicas de protesto
http://www.feuc.br/revista/index.php/tag/encontro-de-historia/

Jornal EL Diario da Espanha, citando o nosso trabalho aqui.
http://www.eldiario.es/internacional/indignacion-politiza-Carnaval-calle-Brasil_0_236227167.html


2 comentários:

  1. Excelente trabalho de Pesquisa! Nota DEZ! Compartilhei pois acho que este trabalho merece uma divulgação ampla!

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    1. Olá, obrigado pelo comentário "Tia" Edna, esse trabalho está para virar projeto de mestrado =)

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