sexta-feira, 29 de março de 2013

Pra que serve o Maestro?


 



"Seus olhos prendem a orquestra inteira. Cada músico tem a impressão de que o regente o vê pessoalmente, mais, que o ouve? […] Ele está dentro da cabeça de cada músico. Sabe não só o que cada um deveria estar fazendo, mas o que está fazendo. É a corporificação viva da lei, tanto positiva quanto negativa , Suas mãos decretam e proíbem […] E uma vez que durante a execução é como se nada existisse exceto esse trabalho, enquanto ela dura o regente é o soberano do mundo.”
Elias Canetti.(1905-1994)


Pra que serve o Maestro? A orquestra precisa mesmo de um regente? Eles são autoritários? Existe o bom maestro? Porque é visto como um herói e as vezes como vilão? É o que tentaremos responder neste texto.


Definição
Maestro ou Regente, você pode chamá-lo das duas formas. A palavra “Maestro” vem da língua Italiana e significa “mestre”, por isso alguns regentes que ainda não são formados dizem que ainda não são maestros, mas apenas regentes. O Maestro conduz a orquestra, e por isso também pode ser chamado de “condutor”, é como se referem a ele na língua inglesa, ou seja “conductor”.
O Maestro Julio Medaglia define “Regente” em seu livro “Música, Maestro!” como:
“Regente, o chefe da orquestra que a prepara e transfere a ela sua interpretação; na apresentação, a partir de uma mimica especifica e provocadora, faz com que os músicos toquem com ela e os assistentes entendam sua concepção musical da obra.” (p.314)
Já podemos começar a entender como é atribuído tamanho poder ao maestro , como ele se torna responsável por toda interpretação musical, e como através dos músicos da orquestra ele faz seu trabalho. Certas coisas podem funcionar bem na teoria, mas são um pouco mais complicadas na prática.


Origem do Maestro.
A profissão surgiu nos meados do século XIX diante de uma necessidade em que os grupos tinham de que alguém dirigisse a orquestra, definiram um músico como organizador, uma vez que os compositores haviam abdicado dessa responsabilidade. Surge o maestro que então toma a frente e passa a interpretar a obra a sua maneira, definindo como uma música deveria ser tocada. O Maestro logo ganharia a imagem de “Grande Regente” se tornando um mito. 

Hans Keller

Mitos e Heróis
Os heróis podem ser criados com base em algum interesse; o herói funciona como um tipo de válvula de escape da sociedade, um modelo perfeito que serve de exemplo para as pessoas. O perfil do herói será moldado pelos detentores do poder, e essa imagem e deliberada pelos meios de comunicação em massa. A mídia pode tanto endeusar um personagem como também pode destruir sua imagem. O regente é mitificado dessa mesma forma, criam uma figura admirada, tudo isso por interesses comerciais apenas.

O maestro Daniel Barenboim afirmou “Regência orquestral como atividade de tempo integral é uma invenção - de natureza sociológica, não artística – do século XX”. Houveram ainda críticos mais duros sobre a posição do maestro como o músico Hans Keller (1919-1985) que disse: “a existência do regente é, essencialmente, supérflua, e é preciso alcançar um elevado grau de imbecilidade musical para achar que observar a batida, ou, para esse fim, o semblante inane do regente, torna mais fácil saber quando e como tocar do que simplesmente ouvir a música.”.

Daniel Barenboim
As pessoas imitam esse herói, principalmente quando ouvem uma música e balançam os dedos como se fossem batutas, ou os braços imitando os movimentos desse regente, alguns fazem o movimento mesmo que nada entendam de música! A imitação do regente está presente até mesmo nas crianças, desde cedo elas entendem que o Maestro é um herói todo poderoso e soberano nas orquestras. A imagem do maestro movendo uma batuta e “manipulando” uma orquestra com seu poder invisível é uma simbologia forte, alguns músicos podem ver isso como um status máximo dentro do meio musical.

Qual é a função do Regente?

Basicamente a ideia do regente é organizar o funcionamento de uma orquestra, desde o ensaio até uma apresentação. O Maestro deve ter ouvido atento e boa percepção, carisma para inspirar os músicos a segui-lo, vontade de impor seu estilo, organização, ambição, inteligência. Ele deve ter toda visão da obra, conhecer todos instrumentos, não é necessário que saiba tocar todos, mas deve ter uma noção de como funcionam, e o que farão em uma obra musical; ele deve guiar os músicos em suas pausas, nas suas entradas e orientá-los em sua forma de tocar. Dificilmente encontraremos um maestro com todas essas qualidades, poderemos também nos deparar com alguns que tem pontos mais desenvolvidos e outros menos, e ainda, alguns que não terão nenhum desses pontos.
O regente precisa interpretar e dar vida a a arte!
Belá Bartók

Ernst von Dohnányi
Maestros bons e ruins.
Como saber se um maestro é bom e ou ruim? Como um homem pode extrair da orquestra seu máximo?
Uma vez quando o compositor Béla Bartók (1881-1945) ouviu a execução de suas Suítes de danças regidas por Ernst von Dohnányi (1877-1960) em 1923, após o termino da obra Bartók disse: “Bem, parece que não sei orquestrar”. Em outra ocasião a mesma peça, com o mesmo arranjo tocada pela Filarmônica Tcheca com a regência de Václav Talich (1883-1961), soou diferente da anterior, e ao final Bartók disse: “Bem, ao que parece eu sei orquestrar!”.
Václav Talich
















Cada maestro tem sua forma de trabalhar com a orquestra, e isso querendo ou não, fica perceptível na qualidade do som que a orquestra produz. É importante observar a disciplina, afinação, sincronia e timbre, pois esses são alguns dos pontos que devemos observar na orquestra, para entender se foi feito um bom trabalho. Um ótimo video que mostra a forma como cada maestro trabalha é o da palestra sobre estilos de liderança feita pela Kairos, onde utilizam a figura de vários regentes, mostrando suas formas de reger; vale a pena assistir.


Críticos e criticas
É certo que muita critica negativas ao maestro também pode surgir de músicos que não gostam deles! Isso é uma realidade frequente em uma profissão que mexe muito com o ego ; não acho que todo maestro seja culpado sempre, devemos levar em consideração que músicos de orquestra também cometem erros.

Críticos de maestros vão ser sempre parciais, e vão eleger seu favorito, eles acabam então tolerando certas mazelas, louvam qualidades “espirituais” mesmo que esse seja envolvido com ações suspeitas! Podemos ver discursos de defesa inflamados a favor de certos maestros, como no caso de João Carlos Martins que foi condenado por irregularidades encontradas pela Receita Federal em suas construtoras, processo que se arrasta por longo tempo. Martins também sofreu um acidente que o fez perder parte do movimento das mãos, o que o impossibilita de tocar piano, seu principal instrumento. Devido a seu enorme carisma, e esse trágico fato, não é surpresa que ele tenha críticos e fãs que o defendam.

O perigo em se criticar um “Herói”, o poder do Maestro.
Existe um risco muito grande quando se faz uma crítica negativa a um Maestro, isso pode acabar te “queimando” no meio musical; mesmo que você tenha fatos e fundamentos bem sólidos, sua carreira como músico pode acabar de um dia para o outro. Acaba-se criando uma conspiração do silêncio, toda ela é controlada por interesses pessoais e o medo de cada músico. 

O produtor de discos Charles O´Connell, atreveu-se a discutir sobre alguns regentes em uma autobiografia publicada em 1947. O próprio admitiu que teria seu nome “riscado da indústria da música”. De fato Connell nunca mais voltou a trabalhar. Regentes exercem poder real, politico e as vezes até mesmo criminoso como: ameaças, chantagens, assédio moral e muitas vezes sexual. Claro que não devemos generalizar, mas lidar com regência é lidar com política.

Conclusão
O Regente as vezes é um mal necessário, em alguns momentos pode ser injustiçado, mas grande parte do tempo é ele que exerce os erros. Ainda podemos encontrar bons maestros! Mas um bom Maestro é igual um Politico Honesto! Sem ironias, eles existem! Mas são poucos.

Mas tem músico que também não ajuda muito, essa animação mostra um pouco disso



FONTES:

BIBLIOGRAFIA:
BOSCHI, Caio César. Por que estudar História?. São Paulo: Ática, 2007.
NORMAN, Lebrecht. O mito do maestro: grandes regentes em busca do poder. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

Nenhum comentário:

Postar um comentário