segunda-feira, 11 de março de 2013

A Democratização da música com o advento da Internet.


Como podemos começar a entender o papel da música hoje? Como ela se relaciona com o público?, como ela esta sendo consumida e produzida. A chamada indústria cultural continua a manipular e ditar as regras dos gostos musicais? É o que tentarei esclarecer nesse primeiro texto da série.


A terceira geração de ouvintes.

Tomo como base a tese da Socióloga e Jornalista Mônica Panis Kaseker onde ela define três gerações de ouvintes. A primeira geração seria a do Rádio e da TV aberta, onde esses escutam rádio coletivamente; a segunda geração é voltada para a TV, em alguns casos mantêm a tradição familiar da escuta do rádio e a terceira geração seria em sua maioria composta por adolescentes ou pessoas mais jovens (por volta de até os 25 anos de idade), que dão mais importância a internet e aos meios que ali dispõem para consumir música, como os Podcasts, Webradios, sites musicais e estações de rádio retransmitidas por TV a cabo. Fica claro que até mesmo pessoas da segunda ou da primeira geração também podem fazer uso dos mesmos meios e costumes da galera da terceira geração.

Influência da terceira geração

Não tem como negar que somos influenciados muito pelo gosto de nossos amigos ou grupos que procuramos nos aproximar. Por exemplo, se um jovem gosta de Rock irá buscar ouvir bandas desse estilo e conhecer grupos que seus amigos também ouvem. Tudo isso é fruto de interações humanas onde influenciamos e somos influenciados. Com o uso da internet essa influência ocorre virtualmente, não somente com amigos mas com sites e blogs que emitem conteúdo ou são formadores de opinião. A influência da terceira geração hoje se dá principalmente por esses meios; buscam ser aceitos em grupos na web, e muitas vezes fazem as chamadas “amizades virtuais” que podem vir a ser tornar pessoais.

Desde o Rádio até hoje

Precisamos primeiro lembrar que o crescimento da indústria cultural teve um enorme apoio do rádio em sua época (temos aqui um texto sobre a história do Gravador até o Rádio), criou a categoria social de “ouvinte”. O rádio era o responsável pela formação do gosto musical nas pessoas, seguiam a lógica da audiência e da publicidade, e como sendo o único meio de noticias e entretenimento, eles definiam o que deveria ser ouvido. É sobre essa época que caem as duras criticas acerca da indústria cultural, mas precisamos levar em conta a realidade atual para saber se isso ainda acontece, e em que proporção.

A Rádio na Atualidade e as Novas Tecnologias

A rádio na atualidade se adapta aos novos meios, hoje podemos escutar música e emissoras de rádio pelo celular, pela internet ou pela TV a cabo. Tais músicas ainda podem ser acompanhadas de texto e informação visual. Muitas emissoras de rádio já tem seus próprios sites e transmitem seu conteúdo de forma online. Definitivamente entramos na era digital, e tudo isso ocorre pela apropriação das novas tecnologias e da sua interatividade. Devemos lembrar que o uso de imagens em uma música não aconteceu bruscamente do rádio para a internet, essa novidade ainda passou pela TV com os videoclipes que eram transmitidos principalmente pela MTV; me lembro que muitas bandas não tinham clipes e os produziam depois da música lançada.

A liberdade em escolher o que se quer ouvir
Hoje o usuário pode escolher o que deseja ouvir, olhar a programação de uma rádio online e desligar se não se sentir satisfeito. O consumidor pode ouvir um podcast por tema que maior tenha afinidade. Algumas pesquisas o crescimento de usuários de Internet, onde uma das fontes diz que 33% dos brasileiros usam a web, e outros para 49,1% de brasileiros , uma terceira fonte diz que 40% dos domicílios possuem microcomputadores conectados a web. Demonstram também que esse número vem crescendo a cada ano. Então podemos tomar como relevante a influência da internet na construção e influência do gosto musical.

Audiência mais interativa
A Audiência hoje está muito mais interativa, ela pode comentar, dar sua opinião e até dialogar com o apresentador da programação de uma rádio ou podcast; o ouvinte passa de apenas um espectador passivo para um formador de opinião. Existem problemas também, como o despreparo da grande parte dos usuários em conseguir formular um debate coerente e respeitoso no meio virtual. Ainda estamos desenvolvendo esses meios e nos encontramos agora em um estado de transição, possivelmente para uma melhora em todos os sentidos.
Destaco o seguinte trecho da tese de Mônica Panis Kaseker:
“Para Cebrián Herreros (2008, p.45),a interatividade no rádio deve ser entendida como um constante diálogo entre todos os integrantes do processo comunicativo: usuários-designers-programadores e usuários-buscadores-consumistas. ´El proceso comnicativo es el resultado de los desarrollos de tales diálogos y usos.´”
(O processo comunicativo é o resultado da evolução e usos de tais diálogos)
E “A integração se refere à combinação entre diferentes formas de expressão, como sons, imagens e textos.” (p.86)

Recepção e percepção nas diferentes práticas
Podemos dizer que hoje temos uma forma diferente de receber a música, alguns dizem “mais democrático”, o que pode ser visto de forma bem positiva. Para o professor George Yúdice o uso da audição e visão continuam sendo importantes, principalmente nesses novos meios, e acredita que o som vem sendo valorizado onde o papel da música vem se ampliando não só comercialmente como também no número de possibilidades sonoras, e a música se torna cada vez mais onipresente. Yúdice justifica então a valorização do som.

Roland de Candé por sua vez tem outra visão, quando fala sobre uma “Depreciação do auditivo”, ele afirma que existe um primado do visual, onde esse substitui o auditivo na civilização ocidental. “a música perde sua situação privilegiada na cultura e na vida cotidiana”. Ele fala que a sensibilidade ao som diminui a ponto de se tornarem “anacústicos” (falta do estudo do som), culpa o ensino que confia cada vez mais na visão da criança com o uso de livros ilustrados, objetos exemplares, desenhos, quadros e gestos, exigindo cada vez menos ao ouvido. Atribui a capacidade do olho ser mais atento e preciso, onde o mesmo pode abrir e fechar-se detalhando o que deseja receber, e o ouvido tudo recebe misturado, ele tece ainda uma comparação: “comparado com o olho, o ouvido parece indolente e sofre o tabu que nossa sociedade impõe a qualquer forma de preguiça!”. Define a música como fugidia (impalpável), prestando-se mal a observação (na qual não define se é visual).
Roland de Candé

Roland de Candé segue a linha de pensamento de Theodor Adorno, um dos filósofos de Frankfurt que cunhou o termo “indústria cultural” e “cultura de massa”, ele ainda definiu o que seria a música “leve”; maior responsáveu pela teoria de uma música superior ou inferior. A música nunca foi preterida no ensino das crianças, ela sempre foi bem usada e os meios visuais são novos recursos no ensino. Fica impossível pensar em uma disputa de formas de ensinar, e na verdade todos são recursos para ajudar no ensino. Candé ainda tenta atribuir desvantagem ao ouvido, sem levar em consideração qualquer tipo de percepção por parte do ouvinte, segue ainda a linha de Adorno em acreditar que a música produzida pela indústria cultural não é música pelo fato de ser comercial. Uma música não perde sua propriedade de música por ser comercial, não deixa de ser arte por esse motivo também, posso afirmar isso com base em H.J.Koellreutter quando fala sobre o valor e desvalor da música, que citarei no tópico a seguir. Candé ainda comete erros em afirmar que a música se presta mal a uma análise e observação, atribui novamente importância ao que é visto apenas. A observação de uma música se faz pela audição ou até mesmo visualmente por uma partitura.
Walter Benjamin

A perda da Aura ou a perda do Halo.

No livro “Teoria Critica Ontem e Hoje” de Barbara Freitag ela cita Walter Benajmin (1832-1940), outro teórico de Frankfurt que define o que é Aura como “uma espécie de invólucro que envolve a obra de arte, contendo ´elementos espacias e temporais: a aparição única de uma coisa distante, por mais perto que ela esteja´ (Benjamin, 1935-1936, p. 170)” 
 
Charles-Pierre Baudelaire
Também apresento para complementar a teoria da “perda do Halo” citado por Marcos Antônio de Menezes em seu artigo “Todo sagrado é profano” onde aborda o poema de Charles-Pierre Baudelaire (1821-1867) de titulo “A perda do Halo”. É uma cena arquetípica onde mostra a perda do sagrado na arte, na qual a mesma deve se adaptar a nova realidade comercial.

Os dois pensamentos basicamente falam da mesma coisa: a perda do valor sagrado na arte, e a transformação em bem comercial. A música nessa visão tem o status de divina e intocada, e qualquer manipulação implicaria em sua qualidade de arte. É desse pensamento que Candé compartilha, vivendo no passado sem se adaptar a nova realidade. Yúdice vê a arte como ela é produzida hoje, sem o conservadorismo de Candé.



O Valor e Desvalor de H.J.Koellreutter

No texto redigido pela Educadora Musical Jusamara Souza, de titulo “Sobre o Valor e Desvalor da obra musical” de Hans-Joachim Koellreutter (1915-2005) descreve:
“Valor não é, qualidade absoluta. Valor é a qualidade relativa de um objeto a ser valorizado, que exprime uma relação, e, precisamente, uma relação dinâmica, entre este e o homem, consequentemente entre este e a sociedade. Características de altura, duração, timbre, intensidade e outras, não são necessariamente objetivas em uma obra de arte. Não se deve esquecer, que, em verdade, não há objetividade. Que objetividade é sempre um mínimo de subjetividade. Porque o homem não pode desempenhar o papel de um observador objetivo, mas, ao contrário, está a cada momento sendo compreendido no mundo observado, influenciando as propriedades do objeto observado.
Valor é sempre valor para uma determinada pessoa ou para um determinado grupo de pessoas. Portanto, valor relativo.”
Hans-Joachim Koellreutter


Koellreutter relativiza o valor de uma obra de arte, tudo depende da sociedade em que se insere, onde vai variar do homem que a produz até o consumidor que a ouve. A música não deixa de ser arte por causa de seu valor comercial ou simplicidade técnica. Uma música feita para vender pode não ser tão comercial assim, e outra feita sem essa intenção pode virar um produto altamente vendável, se levássemos em consideração a teoria de Adorno como certa, poderíamos afirmar o absurdo que uma música pode deixar de ser arte a partir do momento que houver interesse do público em comprá-la. 







Conclusões acerca da qualidade da música e sua Aura.


A música definitivamente não está condenada, e a ideia de perda de Aura ou um Halo, são ideias divinizadas e conservadoras da mesma, é certo afirmar que a música hoje é utilizada para vários fins, inclusive o do lucro, e dentro dessa realidade atual devemos entendê-la sem condená-la misticamente, sem criar tabus ou status do que é “mais música” e “menos música”.
Além disso podemos afirmar que hoje a indústria fonográfica se encontra ameaçada, as gravações musicais não dependem mais de gravadoras ou até mesmo estúdios, essa ética promove uma popularização e maior participação de todos, como já citei, a chamada “democratização da música”

Continua em:
http://euterpedespedacada.blogspot.com.br/2013/04/o-mercado-de-variedades-e-democracia-da.html


Bibliografia:
CANDÈ, Roland de. História Universal da Música. Editora Martins Fontes, São paulo, SP. 2001.

Fontes:
http://congresso.foradoeixo.org.br/2011/10/05/george-yudice/





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