domingo, 24 de fevereiro de 2013

Música da Morte 2: Tristão e Isolda de Richard Wagner

"Tristan Sharing the Love Potion with Isolde" de John Duncan, 1912.
A lentidão a acresce e a velocidade a esgota. Nasce por violência e morre de sua liberdade, e quanto maior é, mais depressa morre. Repele, furiosamente, o que se opõe à sua destruição, pode vencer e matar a causa que constitui obstáculo para ela, e vitoriosa, morre.”
Jardel Dias Cavalcanti


Richard Wagner (1813-1883)
Compositor alemão, nascido em Leipzig. Durante a infância estudou literatura e música. Foi nomeado maestro de coro em Würzburg e depois assumiu postos em Lauchstädt e Magderburg. Seu primeiro casamento foi com Minna Planer. Em Dresden foi nomeado regente da ópera da corte e estudou poesia épica alemã. Apoiava as causas socialistas, pregava pela igualdade e liberdade de todos os homens, também participou do levante de Dresden em 1849, e acabou sendo exilado (quase foi executado nesse ano). Na Suiça, escreveu diversos ensaios e o polêmico livro antissemita “O judaísmo na música”. Wagner não odiava os Judeus de forma étnica, pensamento que seria pregado por Hitler muitos anos depois.Alguns críticos o chamam erroneamente de “precursor do nazismo”. Sua postura antissemita é explicada pela sua postura, na qual condenava a filosofia do lucro, em detrimento da arte, e os Judeus obtinham lucro com a música,portanto, seu antissemitismo não era étnico. 
 
Wagner teve uma grande virada na vida quando o rei Ludwig II patrocinou a montagem de “Tristan und Isolde” (Tristão e Isolda, a obra que vamos tratar aqui) que seria regida por Hans von Bülow, esse regente era casado com Cosima, filha de Liszt. Wagner se apaixonou por ela e Cosima traiu Bülow.

Sobre suas obras
Wagner pretendia resgatar a velha tragédia grega, ele amava o drama, que para ele era uma das mais elevadas artes. Percebia que o drama falado estava fadado a extinção, então resolveu investir na ópera. Buscou a mesma engenhosidade teatral e trágica dos gregos. Wagner faria uso então do chamado “teatro dramático” que na opinião dele era melhor que a ópera, montaria então o “drama musica”. Sua meta era “obra de arte total” (onde também misturaria a pintura). Wagner buscou nos mitos nacionais (germânico) a matéria-prima para sua obra, seria o “renascimento” da tragédia proposto por Wagner.
Paul Bekker descreve a música de Wagner:
consiste em crescendo que chega rapidamente a um clímax, seguidos por um diminuendo e outro crescendo e outro clímax, e assim ad infinitum. Acima de tudo, o caráter da música é determinado por considerações não musicais; a modulação é facilitada por mudanças rápidas no sentido dramático, e os puristas ficam escandalizados com a ausência de uma construção puramente musical. A música, se considerada dramaticamente, torna-se um agente impressionante de temperamento e psicologia, de rapidez agradável e um condutor direto do sentimento”

Preludio no primeiro ato, Tristão e Isolda

Wagner ainda é descrito como um “mago dos sons” a forma como ele sabia manipular as relações harmônicas e tonais.
Schopenhauer elogia a “magia” presente na música do compositor alemão:
É espantoso como a alteração de um semitom, a substituição do terço maior pelo menor, imediatamente força em nós um sentimento desagradável, de angústia, de que com igual rapidez nos vemos libertos pelo modo maior. O adágio atinge no modo menor a expressão do maior sofrimento, torna-se mais comovente lamento”.


Na Análise de Claude Lévi-Strauss
Claude Lévi-Strauss
A Obra de Wagner é analisada por diversos autores, como Claude Lévi-Straus (1908-2009) que desenvolveu a teoria onde associa o mito à música. Ele fala que o mito deve ser aprendido em sua totalidade, pois, seu significado não está ligado a uma sequência de acontecimentos, mas ao entendimento de todos. Lévi-Strauss ainda fala sobre a substituição da mitologia pelas primeiras novelas no século XVIII. O Leitmotiv (repetição de motivo usada por Wagner para evocar uma cena ou personagem) também é analisado pelo antropólogo que aponta para o uso do tema musical ao invés do mitológico. Na opinião de Lévi-Straus, Wagner conseguiu juntar o mito, a palavra e a música de uma forma nunca antes realizada.
Wagner leva o espectador a um universo de incertezas, estados da alma, mundos suspensos e inconclusos, tensões acumuladas que só se resolvem muito tempo depois.

A Obra “Tristão e Isolda”
“Tristão e Isolda” composto em 1857-59 e estreada em Munique em 1865. O épico drama musical de amor e morte, onde Wagner mais explorou as tensões harmônicas. Existem casos de mortes relacionadas a essa obra, não são muitos, mas todos eles tem uma relação com a música. Algumas pessoas que morreram horas depois de estarem em contato com a obra de Wagner, em todas situações as pessoas tiveram um contato prolongado com a música, e das fontes que disponho, todas as vitimas foram músicos que executavam a obra. Em geral as vitimas eram pessoas de idade elevada com certa tendência a problemas cardíacos,com isso tais mortes podem ser explicadas.



Os primeiros estudos feitos por Karajan e a tensão máxima do sistema.

Heribert Ritter von Karajan (1908-1989) salientava que dois homens haviam morrido no mesmo trecho de Tristão e Isolda (No terceiro ato, após o dueto de amor). O pai de Karajan era médico, o que levou o maestro a ter maior contato com essas disciplinas filológicas.
Heribert Ritter von Karajan

Existe um esforço físico ao se fazer música, alguns comparam músicos com atletas, e podemos confirmar essa informação ao observarmos músicos depois de uma longa execução musical (mesmo em concertos de uma hora, ficamos esgotados fisicamente). O regente também sofre um enorme esforço físico e deve saber como resistir a tais esforços, Karajan dizia:

“É como um homem que escala correndo uma enorme montanha e depois simplesmente cai do alto. (…) Quando a pessoa está no alto, tem de saber que está no alto! Desfruta a vista de lá de cima e é estimulado por ela.”
 
O fato que melhor explica as mortes ocorridas em contato com a tensa música de Wagner, se dá principalmente pela alteração dos batimentos cardíacos, ou seja, a música influência e altera o batimento da pessoa que ouve a obra, e nesse caso a executa ativamente. Quando perguntado sobre a questão do ritmo em que andamos e sua ligação como batimento cardíaco Karajan respondeu:
“Cada regente tem uma taxa de pulsação diferente da dos outros, e geralmente o tempo de cada um é matematicamente proporcional a essa taxa. A música de Bach está quase sempre no ritmo de uma pulsação. Mais uma vez, sei disso devido à longa experiência que tive com a ioga. Sei como é o meu batimento cardíaco: sinto-o em cada parte de mim. E se entro na pulsação no início de uma música sinto uma grande alegria física. Dessa forma, todo o nosso corpo produz música. Por esse motivo fiquei tão preocupado quando estávamos fazendo o novo conjunto das sinfonias de Beethoven em 1977. Depois das gravações, fazíamos sessões de mixagem. Levei algumas fitas para Saint-Moritz e quando as ouvi, pensei: ´Meu Deus, isto está bem errado´. Depois percebi. Acontece que Saint-Moritz é um lugar mais alto e o coração bate mais depressa. A música me pareceu errada, mas só lá.”

Universidade de Salzburg

Karajan fala sobre uma unidade filiada à Universidade de Salzburg com o propósito de examinar a tensão física de quando se está fazendo música, a sua influência na mente e no corpo das pessoas sadias e doentes. Chamo a atenção para esse trecho a seguir, nele Karajan explica exatamente o processo que acontece em Tristão e Isolda, ou seja, os efeitos no corpo causados por uma música lenta (que no caso de Wagner é agravado por sua técnica em criar “tensões”)
“Tenho uma frequência cardíaca baixa, por volta de 67 ou 68, mas verificamos que num trecho musical tranquilo que antecede um climax essa taxa pode subir a 170. Música lenta com pausas intermitentes produzem uma tensão máxima no sistema, tanto na mente como no corpo. E sabemos que isso pode provocar uma tensão prejudicial e até letal”
Sobre os casos de morte em Tristão e Isolda
Joseph Keilberth


Karajan afirma que três colegas seus haviam morrido praticando o mesmo trecho do terceiro ato de Tristão e Isolda de Wagner. O caso mais famoso foi o de Joseph Keilberth, nascido em 19 de abril de 1908, morreu regendo essa obra em Munique, no dia 21 de julho de 1968. Da mesma forma morreu Felix Morttl, regente austríaco nascido em 1856, durante a centésima execução dessa obra, teve um ataque cardíaco, foi levado com vida ao hospital e morreu 11 dias depois, no ano de 1911.
Será que podemos pensar que essa música é assassina? Diante de uma associação do ritmo da música e seu batimento cardíaco poderemos chegar a uma conclusão mais apurada. Wagner conseguiu transmitir a dor e a sensação de morte nas tensões de sua obra, o que filologicamente foi fatal nos casos já citados.
Felix Morttl

Efeitos da música no corpo

O Neurocientista inglês Doutor Jack Lewis fez um estudo relacionando os exercícios físicos com o tipo de música que a pessoa ouve para estimular um melhor desempenho físico. Ele dá algumas dicas, como ouvir música antes de se exercitar para “entrar no clima”. Lewis também cita o que Karajan já apontava: combinar a música com o batimento cardíaco. O Neurocientista diferencia o exercício da mulher com a do homem, sendo que as mulheres necessitam de músicas mais rápidas, ou seja , com batimentos mais rápidos, essa diferença é melhor explicada em um estudo feito pela professora Jill Kanaley, que aponta a vantagem do homem por ter o coração e o pulmão maior que o da mulher, e também uma proporção maior de hemoglobina (que carrega o oxigênio pelo corpo), portanto para a mulher atingir um mesmo nível de exercícios que o homem, precisa ter mais esforço.


Analise nos dois casos (Seress e Wagner)
Vejo que a música de Seress obedece o plano da reflexão, pessoas depressivas ouvindo uma música com temática depressiva, através de reflexões intelectuais as levando a um estado ainda pior. Em Wagner, embora a peça também possa ser reflexiva, suas mortes foram ligadas a um aspecto físico, ou seja, os batimentos da música com o batimento cardíacos, fenômenos explicados pelas ciências exatas.
O numero de mortes registradas foi maior no primeiro caso (Seress), mas a maioria deles foi muito duvidosa tendo em vista a situação de desespero da Hungria na época. No caso da obra de Wagner, os poucos casos registrados não deixaram dúvidas da influência da obra sobre o corpo físico das vitimas.

É interessante ouvir toda a obra, aqui postei somente o terceiro ato, onde ocorreram as fatalidades (Parte 2)
Ato 3 Parte 1


Ato 3 parte 2




Bibliografia:
Guia Ilustrado Zahar. Música Clássica.Joger Zahar editor. 3º edição.
MONIZ. Mito e música em Wagner e Nietzsche. São Paulo: Madras, 2007.


Fontes:

Nenhum comentário:

Postar um comentário