quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Fortuna

 
Carmina Burana foi constrúida em 1936 por Carl Orff (1895-1982). É uma adaptação musical de textos alemães descobertos no Mosteiro Benediktbeuern. Eram canções profanas onde a mais conhecida é o Finale “O Fortuna”. Embora a obra original tivesse indicações da sua antiga forma de executar, Carl Orff optou por fazer outra composição, aproveitando somente a letra, e esse momento tão conhecido é a evocação da Deusa da Fortuna.
O codéx Burano era do século XIII, contendo cerca de 200 peças dos séculos XI ao XIII.

Um pouco sobre Carl Orff
Alemão nascido em Munique. Em 1924 fundou uma escola de ginástica, música e dança. Tinha influência de Stravinsky. Gostava de explorar uma linguagem musical que envolvesse os impulsos primitivos do ouvinte ao mundo sonoro, o que é bem presente em suas obras marcada pelos ritmos irregulares e pulsantes e de expressão forte e marcante. Conseguia um tipo de efeito “enfeitiçador” obtido pela repetição.






 Alguns críticos consideram sua música “pobre”, eu acabo ignorando essas afirmações, a meu ver são afirmações feitas na maioria das vezes pelos conservadores que mais atribuem valor a harmônia e a melodia, desprezando o ritmo. Como exemplo de um desses infelizes críticos posso citar Roland de Candé, que diz: “Apesar da pobreza do pensamento musical, sempre ficamos seduzidos por essa música […] o único modo de comunicação com o público. Seu desprezo pela inteligência dos ouvintes é tal, que ele acaba por não dar mais importância à compreensão do seu texto.”.

  Outro que o critica e elogia é Otto Maria Carpeux, que como conservador também aponte a “pobreza” melódica (embora eu interprete pobreza nesse sentido como uma música de pouca melodia apenas), mas sua observação sobre Orff é mais positiva quando diz: “de efeito irresistível: a declamação das palavras é de extrema pobreza melódica, fortemente repetitiva, mas também muito expressiva, empregando motivos do folclore musical bávaro” ele ainda o defende da critica: “Rivais de Orff, invejosos dos seus sucessos, falam em ´pobreza franciscana´, em ´mania de ritmo monótonos´, em ´charlatanismo que pretende hipnotizar o público'. [...]Orff descobriu um novo mundo sonoro.”



A fortuna, Pedro Pablo Rubens, 1638.


A Deusa “Fortuna”
Uma das divindades romanas que dirigia a vida dos homens. Essa deusa distribui os bens e males segundo suas vontades. Tem várias representações sobre sua forma. Uma das mais frequentes é ela em uma roda, controlando os altos e baixos da vida dos homens em sua roda da fortuna. Algumas representações colocarão em suas mãos uma cornucópia e outras ela terá em mãos um timão de navio.
A Fortuna pode assumir um lado mal, assim chamada de má Fortuna, representada pela figura de uma mulher exposta em um navio sem mastro e sem timão, com os véus rasgados pela violência do vento.








La Roue de la Fortune
A Roda da Fortuna
Uma Roda do poder, que mostra a nobreza e as calamidades, a prosperidade e lucros ou os níveis mais mundanos. O perder é sempre negativo mas podemos ganhar no futuro pois a roda gira, se estiver embaixo (inferior perda) amanhã poderá estar na parte de cima (superior, ganhos). A Roda da Fortuna ensina uma importante lição: aprender a ganhar e perder e que nem sempre estaremos no alto, terá dias que estaremos em baixo, mas dias melhores virão.
A Roda da Fortuna foi representada em uma iluminura medieval o “Hortus Deliciarum”. As três figuras em cima da roda chamadas de: regnabo (eu devo reinar) regno (eu reino) revanvi (eu reinei), e as três figuras de baixo ainda são continuações das de cima, com exceção da última inferior a sum sine regno (eu não tenho reino), aquele que cai para fora da roda não tera mais chance de reinar.


Quem fazia esse tipo de música?
Eram os Goliardos, trovadores que existiram entre os séculos XI e XIV. Eles eram poetas músicos errantes, percorriam a Europa ocidental, eram estudantes de clérigos que vagavam pelas terras pois tinham dificuldades com a Igreja. Costumavam escrever em Latim, mas podiam também usar o francês e o alemão. Suas canções eram das mais variadas: eróticas, satíricas, anticlericais... Precisavam manter o anonimato por causa dos escândalos.



Tradução
Fortuna hoje é traduzida e entendida como sorte, ou riqueza, a Letra mostra o girar da roda e como tudo se desfaz de um estado ao outro “derretendo como gelo”, a roda que dá e tira.

Fortuna imperatrix mundi




I
O Fortuna,                                Ó Fortuna
velut luna                                 tal a Lua,
statu variabilis,                          uma forma variável!
semper crescis                         Sempre enchendo
aut decrescis;                           Ou encolhendo:
vita detestabilis                         Ó que vida execrável!
nunc obdurat                            Pouco duras,
et tunc curat                             Quando curas
ludo mentis aciem,                    De nossa mente as mazelas;
egestatem,                                A pobreza,
potestatem                               A riqueza,
dissolvit ut glaciem.                   Tu derretes ou congelas.
II
Sors immanis                            Bruta sorte,
et inanis,                                   És de morte:
rota tu volubilis,                         Tua roda é volúvel,
status malus,                             Benfazeja,
vana salus                                Malfazeja,
semper dissolubilis,                    Toda sorte é dissolúvel.
obumbrata                                Disfarçada
et velata                                   De boa fada,
michi quoque niteris;                 Minha ruína sempre queres;
nunc per ludum                         Simulando
dorsum nudum                          Estar brincando,
fero tui sceleris.                        Minhas costas nuas feres.
III
Sors salutis                               Gozar saúde,
et virtutis                                  Mostrar virtude:
michi nunc contraria,                 Isto escapa a minha sina;
est affectus                              Opulento
et defectus                               Ou pulguento
semper in angaria.                    O azar me arruína.
Hac in hora                              Chegou a hora,
sine mora                                 Convém agora,
corde pulsum tangite;                O alaúde dedilhar;
quod per sortem                        A pouca sorte
sternit fortem,                           Do homem forte
mecum omnes plangite!             Devemos todos lamentar


Bibliografia

CANDÉ, Roland. História Universal da Música: volume 1.2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
CANDÉ, Roland. História Universal da Música: volume 2.2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
CARPEAUX, Otto Maria. O livro de ouro da história da música, da idade média ao século XX.Rio de Janeiro: Quorum editora.

Fontes:
http://www.hottopos.com/convenit5/08.htm




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