sábado, 29 de dezembro de 2012

Reflexões sobre a música na ditadura e a música de hoje.

“Minha liberdade, portanto, consiste em mover-me dentro da estreita moldura que estabeleci para mim mesmo em cada um de meus empreendimentos”
Stravinsky



Dizem que a música anterior a nossa época era melhor, principalmente aquela feita na ditadura, falam que as letras eram mais criativas e que a música tinha mais conteúdo que a de hoje. Em parte eu concordo com isso, mas estou longe de criar um mandamento e repetir o erro de muitos. A ideia de tentar comparar a arte atual com a antiga é comum desde que o homem faz arte, uma parte saudosista sempre dirá que o atual está em decadência e o antigo era melhor, e outros irão dizer que hoje estamos mais evoluídos que antes. É improdutivo ficar comparando a qualidade de uma arte passada com a de hoje, até podemos observar a mudança dentro do mesmo estilo, como todos os tipos de Rock que surgiram do Rock and Roll, mas não poderemos dizer que essas novas ramificações são mais ou menos evoluídas que a anterior. Não devemos esquecer o antigo, assim como devemos permitir que o novo surja.

Música na ditadura
É verdade que na ditadura o artista precisava se desdobrar muito mais para criar algo, devido aos grandes limites que sofria, isso fazia com que o músico pensasse mais em uma forma de driblar o sistema, então criava-se uma música com a letra muito mais elaborada e criativa, tudo por causa da limitação imposta, o que era ruim, acaba se tornando uma mola motora para a criatividade.

Em momento nenhum devemos usar essa justificativa para dizer que a ditadura foi boa, pois privar pessoas de sua liberdade, torturar e matar nunca serão coisas legais, e a solução para termos supostamente uma arte “melhor” não é voltarmos aos anos de chumbo. Estarei explicando melhor a seguir alguns pontos segundo a minha visão.

Cálice de Chico Buarque, 1973


Letras mais criativas? E a parte instrumental?
De fato a música na ditadura tinha uma letra muito mais criativa do que a maioria das que vemos hoje, tudo isso por causa da repressão e limitação, mas devemos observar o instrumental da época, que não era nada complexo (e complexibilidade não é sinal de ser bom), sua forma não era muito diferente das que temos hoje, músicas feitas pelos mesmos artistas como Caetano e Gil, hoje tem um instrumental igual ou até melhor, devido ao tempo de experiência e ao contato com novas possibilidades desde então.


Acesso a muitos recursos garantem uma boa música?
Nem sempre, o acesso a novos meios irão garantir frutos criativos, Livres da ditadura, hoje não temos letras como naquela época, até porque não faz sentido falar das mesmas coisas, a repressão política não é a mesma de hoje, a situação politica é bem diferente nesse século XXI. A quantidade de artistas é muito grande, o que faz aparecer muitas coisas medíocres também, principalmente artistas que fazem obras voltadas para o mercado. Uma minoria, ainda faz uma arte bem criativa, muitos se voltam a atual situação do país, fazendo música de protesto! O grande problema é que a maioria das pessoas se encontra em um estado de alienação total, onde acham que tudo vai muito bem; a tecnologia amansou as pessoas, e enquanto elas discutem qual é o novo celular da moda, Índios Kaiowa e Xinguanos lutam por suas terras, pessoas morreram em Pinheirinhos e morrem todos os dias lutando por seus direitos. Artistas engajados que estão bem informados sobre esses acontecimentos, fazem arte de protesto, só que a mídia não mostra porque não vende.
Explico isso pois vejo uma supervalorização do artista da ditadura, realmente eles foram heróis em seu tempo, estiveram em uma situação difícil, mas que mesmo sendo uma das piores épocas de suas vidas favoreceu em sua arte, por isso são tão valorizados hoje. Afirmo que são supervalorizados pois hoje ainda temos esses “guerreiros” da arte que infelizmente não estão em evidência. A melhor exemplo são as músicas de protesto feitas em 2013 por vários artistas, ao mesmo tempo que pessoas afirmavam não haver música de protesto pois Gil e Caetano não se manifestavam...

Zinho Trindade, é um dos músicos que fez parte do movimento em favor dos moradores do Pinheirinhos.

Qual é a dificuldade do artista ser criativo hoje?
Começa a existir uma dificuldade por parte da maioria dos artistas em produzir algo realmente criativo, porque se encontram em total liberdade diante de tantos elementos que se perdem entre eles. Acho que a globalização tem seu lado bom, que leva você a conhecer outras culturas, outros elementos, mas a falta de limites nos faz ficar perdidos diante de tanta informação. Sigo a ideia de Stravinsky, de que uma limitação é boa para o processo criativo, mesmo diante de tantos elementos é bom que o compositor limite o que poderá ser usado. Não sou a favor de que tenhamos que passar por uma ditadura militar outra vez, mas que o artista pode usar a ideia de limitação para criar. Segundo Stravinsky:
“A função do criador é selecionar os elementos que ele recebe daí, pois a atividade humana deve impor limites a si mesma. Quanto mais a arte é controlada, limitada, trabalhada, mais ela é livre.”
Por mais estranho e contraditória que pareça essa afirmação, ela possui uma verdade, algo que me fez pensar muito , pois como algo limitado e controlado pode ser livre?
Diante de uma gama palpável de elementos é possível com muito mais controle combiná-los e através dessas possibilidades poder criar com muito mais criatividade. Vai existir duas formas de limitação, aquela que nós mesmos vamos criar, como sugerida por Stravinsky e aquela imposta pelos outros, na qual artista nenhum deseja. Como dei o exemplo da ditadura onde a música tinha letras bem criativas , algumas obras da literatura e até da música foram criadas em cárcere como o quatuor pour la fin du temps (quarteto para o fim dos tempos) de Oliver Messiaen, quando esse era prisioneiro em um campo de concentração nazista, ou obras mais bizarras como os romances de Marques de Sadê, quando estava preso na bastilha ou o primeiro volume de Mein Kampf escrito por Adolf Hitller. Torno e repetir, que a prisão, a ditadura, o limite imposto por sistemas repressores, nunca será o certo, o ideal é que o próprio artista limite os elementos de sua criação por escolhas próprias, e nunca aceite a justificativa de que a repressão imposta é boa para a criatividade, não precisamos de limites impostos por outros!

quatuor pour la fin du temps


Conclusão.
Através da análise da proposta de Stravinsky podemos ter um ótimo meio de criação, mesmo que estejamos diante de muitas possibilidades, então deveremos selecionar e nos impormos alguns limites na hora da criação.“ A arte é livre”, e fazendo proveito disso é que você terá total liberdade para escolher que elementos que quer usar, mas depois de feita as escolhas, procure limitar-se, faça um recorte, e tenha um foco ou ficará perdido em meio ao oceano de possibilidades.

Agradecimentos:
Ao Tiago Malta, pela iniciativa nesse debate produtivo.
Ao debate que rolou no Podtrash lado B

Bibliografia:
STRAVINSKY, Igor. Poética Musical (em 6 lições). tradução, Luiz Paulo horta - Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

7 comentários:

  1. Permita me fazer comentário dentro desse RICO E ATUAL texto sobre criatividade música e DITADURA MILITAR.
    É a primeira vez que me sinto competente o suficiente para travar uma discussão sobre um tema que não domino (Música) porém quando este se confunde ao tema que MOVE A MINHA VIDA (Política) fica fácil emitir um parecer.
    Daniel como sempre é muito lúcido e feliz em suas colocações mais me permitam fazer alguns apartes necessários:
    O Instituto da Censura não foi um complicador apenas para a música, as artes de um modo geral eram vigiadas pelos sensores ditatoriais da época, porém, como a música, sempre foi a arte mais fácil de ser consumida, notou se a mão firme do regime, ao vetar determinadas publicações em detrimento de outras.
    Era notório que alguns artistas a época não simpatizavam com o regime, e se estes compusessem CANTO GREGORIANO, seriam vetados, não pelo conjunto da obra, mas pela militância que exerciam.
    Eu tenho uma máxima (é minha mesmo) "Se e possível enganar uma máquina (computadores, telefones...) a facilidade de se enganar um ser humano é ainda maior..." Num mundo de hoje, onde até o SUPERCOMPUTADOR DA RECEITA FEDERAL "toma volta" (eu sei pois conheço esses meandros) havia facilidade em enganar os sensores da ditadura, como no exemplo extremamente bem postado. (Cálice - Chico Buarque, que até antes de virar um ser profundamente político, cheguei na minha inocência, sugeri la, para música eucarística sacra na cerimônia do meu Crisma)
    Quanto a dificuldade de fazer poesia atualmente, ou de fazer músicas (letra e melodia) que saiam da mesmice fonográfica que temos, credito a 5 fatores que vou destacar:
    1 - Em pleno século 21, não é necessário dizer coisas, ou musica la, elas saltam aos nossos olhos, sejam as realidades sociais, o amor ou desamor a pátria e até o amor e o sexo, antes era complicado discutir quaisquer desses temas.
    2 - Os computadores (minha outra praia) hoje transformam qualquer um em CELEBRIDADE MUSICAL, programas cada vez mais "amigáveis" aos leigos, chegam as suas mãos e estes usando a sensibilidade ou a musicalidade que tem (ou acham que tem) produzem conteúdos alguns maravilhosos, outros dantescos.
    3 - O empobrecimento dos valores humanos, e a sensibilidade artística é um valor humano, enquanto senhoras europeias, exemplo produzem fotos sensuais para pagar o ônibus escolar de seus filhos (e fotos sensuais também são arte) discutimos o pudor dessas senhoras, ao invés de discutir sua coragem em "vender se" em prol do conforto de seus filhos, principalmente numa Europa mais quebrada que arroz de terceira.
    4 - O ser individual em detrimento do "ser político", ontem mesmo me peguei elogiando uma música da Sandy onde ela (formada em Língua Portuguesa e Literatura) pelo refrão "Sou jovem pra ser velho, mas velho pra ser jovem" ou coisa assim... Falta tergiversar, popularmente chamado de PIRAR NA BATATINHA OU VIAJAR NA MAIONESE, arte é sim VIAJAR NA MAIONESE.
    E por fim 5 - Falta nos deixar de olhar apenas para o vil metal, para nossa luta pela sobrevivência e "perder tempo" tentando uma análise profunda sobre "o que aquele compositor queria dizer quando compôs aquilo..." ou "Por quê essa música tem tanto a ver comigo..."
    Engraçado, eu mesmo comecei esta reflexão falando politicamente, mas termino afirmando categoricamente que nos falta a sensibilidade, se a morte para nós hoje é algo banal, se não nos pegamos chorando quando uma menina de 7 anos esperou por 5 horas por um NEUROCIRURGIÃO, como seremos tocados, por melodias, notas e frases versadas???

    Parabéns Daniel.

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    1. Grande Dudu, obrigado pela colaboração e exposição da suas impressões e visões, sei que essa é sua área favorita, a minha é sempre música, mas nada melhor que a interdisciplinaridade não é?
      Eu me lembro bem desse fato do Cálice, me lembro de você postar isso no Facebook, mas agora não lembro se foi eu que te adverti do real sentido da música, realmente não lembro agora...
      1 Sim com a liberdade é possível se falar de tudo na música, acho isso ótimo, o artista é bem mais livre hoje, ainda enfrenta algumas barreiras, mas é mais livre.
      2 Esse é um debate interessante, mas procuro não cair no erro de dizer a clássica “a popularização vulgariza a arte” algo que discordo, acho que a net tem seu lado bom, que é a liberdade de divulgação, o que falta na minha opinião é o bom senso das pessoas, diante da facilidade de produzir seu próprio disco e música não tomam cuidado com a qualidade, chegamos a comentar sobre isso no último podcast.
      3 Se não me engano são espanholas as mamães que tiram as roupas não? De fato muita gente apenas julgou com base em valores morais, dizendo coisas como “eu arrumaria um emprego”, mas a pessoa parece nem ler a matéria onde diz que elas o fazem justamente por falta de emprego. Hoje existe uma coisa chata que afeta muito a arte na minha opinião, que é a necessidade de se ganhar dinheiro, acho que é possível equilibrar as coisas, mas o que mais vemos são obras de arte (música na maioria das vezes) como se fossem caça níquel. Sim a música é a mais fácil nesse sentido, porque ela é sonora, e o som entra nos ambientes mesmo sem ser convidado.
      4 Bem na arte você tem a liberdade para criar, ou como disse, pirar mesmo, e até ir contra a idéia do texto, usar todos elementos possíveis! Lembrar que a ideia é de Stravinsky (que eu concordo), e na qual explica muito bem o fenômeno de criatividade na ditadura. A questão que lanço com o texto é: será que a liberdade de se poder usar tudo não nos deixou perdidos? O ideal não seria o próprio (ninguém pode limita-lo, ninguém tem o direito) artista fazer um recorte do que usar? É a famosa frase “Não tente abraçar o mundo com as mãos”.
      5 A falta de análise das músicas leva a conclusões muito superficiais, como muitas que vi, onde se decretava hora que a música na ditadura era melhor e hoje tudo é uma porcaria, hora se falava que a música hoje é muito melhor que a antiga, se repete esses erros sem analisar o contexto da música e mesmo o instrumental que as vezes fala mais que a própria letra (fiz uma postagem sobre isso aqui no Blog, de como pesquisar músicas).

      Vivemos numa sociedade cada vez mais tecnológica, talvez a sensibilidade esteja sendo esquecida por causa de uma vida corrida, e tecnológica demais, os grandes filósofos e artistas observavam a natureza, alguns a partir de elementos que observavam (elementos que ele selecionava e limitava) criavam uma obra de arte, um quadro, uma música, talvez falte um pouco disso hoje, olhar uma árvore, olhar o céu, um filhote de passarinho no ninho...essa sensibilidade que nos torna humanos mais artísticos.

      Muito obrigado Dudu, obrigado por comentar é sempre bom ter amigos participando =)

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  2. O período da Ditadura Militar coincidiu com uma época de grandes criações poéticas e musicais da música brasileira. Ponto.

    Isso não quer dizer que elas tenham relação de causa e efeito. Muita coisa boa foi feita antes disso e muita seria feita depois. O que havia de diferente era a temática política, que gerou grandes músicas, muitas das quais ficaram mais famosas justamente por terem sido proibidas (eu particularmente sempre achei isso uma grande bobagem que a censura faz de modo geral).

    Os nomes que “surgiram” no período alimentaram-se musicalmente de nomes da antiga MPB, como Ismael Silva, Noel Rosa e outros tantos.
    Que o digam Chico Buarque, Caetano, Gil, Edu Lobo etc.

    Tom Jobim, Vinícius, João Gilberto e a turma da Bossa Nova, “revolucionaram” a MPB alguns anos antes da Ditadura e continuaram a fazer coisas ótimas durante esse triste período. Aliás, uma das músicas mais bonitas da MPB, “Águas de Março”, foi composta por Tom Jobim no auge da repressão, cujo tema nada tem de político.

    Minha conclusão é de que a coincidência dos períodos de repressão e grandes músicas é justamente isso, uma simples coincidência.

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    1. Grande Edison, obrigado por comentar e expressar sua opinião.
      eu concordo contigo acho que muita coisa boa existia antes, durante e após (hoje). Mas mesmo assim não deixo de notar uma certa genialidade nessas letras de protesto, é claro que é opinião minha, então tentei explicar isso com uma teoria do Stravinsky (que em momento nenhum cita as músicas da ditadura brasileira).

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  3. Olá, Daniel. Primeiramente fico muito honrada pelo convite em ler sua análise.
    Hoje vivemos uma época em que tudo é permitido. E nem sempre a permissividade é boa... Assim como a repressão descomunal é ruim, a liberdade sem limites também o é. Creio que atualmente temos formadores de opinião que são analfabetos políticos e muitas vezes funcionais e poucas são as pessoas que têm um pensamento crítico ou que desejam desenvolvê-lo, pois tudo o que cai na mídia é considerado bom... E como podemos dizer se isso é certo ou errado? O que lhe dirão é que arte é uma questão de gosto... e infelizmente, para mim a música que toca nas rádios não são as canções que considero boas (e a maioria de nossos cantores e compositores ótimos fazem sucesso fora do país, enquanto aqui as pessoas se entregam aos sucessos da besteirologia da internet).
    Concordo com você quando diz que a limitação não deve ser imposta (socialmente) mas por nós mesmos. Acredito que cada ser humano é capaz de dizer o que é bom para sua arte e o que deve ser descartado. Como atriz que sou, acredito na criação às últimas consequências... Devemos criar, enlouquecer e depois perceber o que deve compor a obra e o que deve ser colocado de lado... e estarmos sempre atentos para poder retomar o que for preciso para que a composição surja... Partir do exagero para trazer à tona o belo!
    grande abraço e muita luz
    carina

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    1. Muito obrigado Carina, fico agradecido pelo tempo que gastou lendo o que escrevi, sua opinião foi muito importante.
      Infelizmente os jovens ainda são muito alienados politicamente, e não falo de escolher um lado (direita ou esquerda) mas ter conhecimento do que está rolando e como empurram entretenimento burro para ficarmos entorpecidos.
      muito obrigado pelo comentario Carina.

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  4. Hj em dia tem musicas ótimas..só não no mainstream...As musicas mainstream de hj em dia são produtos fabricados com o unico intuito de ganhar grana..e isso não é arte. Arte vem de dentro e pode sim gerar lucro, mas quando esse se torna o objetivo principal fica tudo falso e retardado..Sorte q o mercado tem os adolecentes pra gastarem dinheiro com porcaria

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