sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O que deve ser observado quando pesquisamos sobre música.

Pude observar com atenção no decorrer dos anos como é analisada a música em sala de aula, em oficinas e até em estudos, seja em monografias e outros trabalhos acadêmicos, quase sempre grande valor se dava a letra da música, por vezes ignorando-se o contexto histórico e a parte instrumental da música, o que me levou a pensar: tem algo errado nisso ai! Afinal, temos muita música instrumental que possui uma carga de história e significados, e que não poderiam ser analisados por sua letra, pelo simples fato de não a terem! Focar a análise da música apenas em sua letra pode levar a generalizações, e a pesquisa será apenas parcial.
Pesquisadores e professores podem encontrar grande dificuldade quanto a análise instrumental de uma música por não serem músicos, mas talvez nem precise de tanto para isso, podemos falar da história da música sem adentrar em sistemas teóricos da mesma, apenas analisando o contexto histórico do que acontecia, como a música chamada erudita era executada no Brasil em clubes elitizados, onde e por quem era feito o lundu e da modinha, e posteriormente o choro e a MPB. Cada estilo tem ua sua história, alguns são criados por sincretismo e outros por necessidade, uma simples análise disso pode fazer toda a diferença na percepção de uma música, até mesmo dados do IBOPE podem ser usados em uma pesquisa de gostos musicais em uma determinada época.
Destaco o seguinte trecho do livro “História & Música” de Marcos Napolitano:
Não basta dizer que uma música significa isto ou aquilo. É preciso identificar a gravação relativa à época que pretendemos analisar (uma canção pode ter várias versões, historicamente datadas), localizar o veículo que tornou a canção famosa, mapear os diversos espaços sociais e culturais pelos quais a música se realizou, em termos sociológicos e históricos. (p.86)
A música ainda poderá estar sujeita a diversidade de ambiente, um show ao vivo será diferente de uma roda de violão, isso irá influênciar uma mesma música, então como podemos ver as possibilidades são muitas!

Se você sabe ler partituras?
Além de toda essa atenção já descrita você ainda terá a vantagem de fazer a análise da partitura, mas nunca tome isso como única fonte possível, a escuta é fundamental, ou acabaria novamente fazendo uma análise parcial baseado apenas na escrita musical, que nem sempre vai dizer tudo sobre a música.

Vamos aos Exemplos
Uma mesma letra pode ter apelos diferentes, mudando-se o local, cantor ou até estilo, vamos aos exemplos:

Proibida pra mim

A música “Proibida pra mim” do Charlie Brown Jr. Devido a forma despojada e jovem que Chorão canta ela passa a idéia de um cara descolado atrás de uma “gata”, o que fica bem evidente pelo clipe onde o vocalista mostra seu cabelo, anda de Skate ao lado da moça (ela com patins), e consegue como um verdadeiro macho Alfa “conquistar” a moça, o final do clipe mesmo mostra ele empurrando um dos possíveis pretendentes da moça, mostrando quem finalmente vencerá a disputa. O clipe é ótimo e entra totalmente no clima da música e da forma como ela é cantada.



Zeca Baleiro por sua vez faz uma versão da música, com estilo MPB apenas em voz e violão, a canção assume um clima sereno, e mostra o lado romântico da obra, sem o clima de “macho pegador alfa”. Se a versão ficou melhor que a original? Bem isso o gosto de cada um que poderá avaliar, aqui nessa análise não avaliaremos o que é melhor ou pior, mas provar que apenas a observação da letra, leva a uma pesquisa deficiente.



Aqui temos Chorão e Zeca baleiros juntos cantando ao vivo a mesma música, reparem como a voz de Zeca baleiro fica mais animada, e como Chorão também canta de forma mais branda, o instrumental equilibra entre os dois mundos, o Rock do Charlie Brown e a MPB de Zeca Baleiro, ou seja, uma terceira versão, o que leva a um clima diferente das duas versões anteriores, o que mostra também a diversidade do ambiente, que nesse caso é um Show ao vivo.



Carmina Burana – O Fortuna
Em 1937 estreia Carmina Burana, onde Carl Orff (1895-1982) um compositor Alemão readapta manuscritos descobertos em um mosteiro Benediktbeurn, onde a passagem mais conhecida e incessantemente usada nos cinemas é o Finale “O fortuna” (a roda da fortuna, trazendo sorte e azar). Temos nesse caso o encontro de um poema medieval profano, com um arranjo muito mais moderno, e instrumentos do século XIX.



O Fortuna, aqui apresentada pela banda Therion, ganha outra cara apenas se mudando os instrumentos.


Agora vejam a versão da banda Nevergreen, usam o mesmo poema, mas o instrumental fica ainda mais diferente, cria outra atmosfera para a música, princialmente com a voz solo masculina, essa versão passa uma sensação diferente das outras duas.


Fico Assim sem você

Talvez pouca gente saiba que a original é de Claudinho eu Buchecha, ambos Funkeiros, o que pode causar pavor aos ouvintes mais “elitizados” que negam o Funk de forma preconceituosa!
Claudinho e Buchecha fizeram enorme sucesso, é claro que o Funk que eles faziam era muito diferente de alguns feitos hoje, mas devemos lembrar que existem vertentes dentro do estilo, generalizar é sempre um erro, e todos os estilos ganham novas caras com o passar do tempo! Já vi várias denominações para o que eles faziam, como Dance Funk, Funk Melody e até Pop. Ao ouvir a música “Fico assim sem você” passa o clima de amizade e alegria da dupla, é uma música para dançar e curtir, porém ela pode ser encarada de outra forma, quando tomamos conhecimento de sua história; em 2000 Abdullah faz declarações de amor a sua namorada, com essa inspiração ele compõe com Cacá Moraes a música “Fico assim sem você”, ele amostra a música ao amigo Buchecha,em uma homenagem incluíram o verso “Buchecha sem Claudinho, sou eu assim sem você”. Em 2002 Claudio Rodrigues de Mattos, o Claudinho falece em um acidente de carro na Rodovia Presidente Dutra, como podemos ver embora a música tenha sido feita antes da morte do cantor, ela assume uma outra percepção após a tragédia, o que mesmo assim não tira seu caráter dançante e animado, talvez na percepção de algumas pessoas ela passe a ter um signifcado diferente depois que tomam conhecimento de tais informações.



Em 2004, Adriana Calcanhotto regrava a música que inicialmente tinha a intenção de dar uma nova roupagem ao sucesso da dupla, então o grava para um álbum feito para as crianças, o CD “Adriana Partimpim”, mas ao que parece a versão conquistou público adulto também. Novamente vemos o estilo MPB, com voz e violão, o clipe também pode fornecer uma ótima fonte de análise, ele é feito em animação e mostra bastante a intenção de música para crianças.



Fonte [Acessado em 9/11/2012]

Bibliografia
MONTEIRO, Mauricio. A construção do gosto: música e sociedade na Corte do Rio de Janeiro 1808-1821.São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.
Guia Ilustrado Zahar/editor geral John Burrows com Charles Wiffen; com a colaboração de Robert Ainsley. 3ª edição.Rio de Janeiro-RJ: Jorge Zahar Editor.
NAPOLITANO, Marcos. História & música - história cultural da música popular. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

3 comentários:

  1. Show de bola esse post... Gostei mais ainda por vocês terem citado o Therion...rs

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    1. Therion é uma banda que eu já ouvi muito e muitas vezes, esse artigo é interessante até para quem não é músico e deseja fazer uma pesquisa sobre música, ou seja, para os casters é uma boa também =)

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  2. Bem legal e interessante! Realmente é comum as pessoas fazerem uma análise totalmente parcial de músicas, sem a observação do contexto, da época, do arranjo etc. Normalmente só avaliam um aspecto que mais lhe interessam na música, seja o ritmo, a letra ou a complexidade técnica.

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