sábado, 24 de novembro de 2012

O futuro da Radio MEC, a música clássica é elitizada?



O Futuro da Rádio MEC
Hoje, dia 24 de novembro, uma notícia me chamou a atenção: foi anunciado pela musicista Jocy de Oliveira que a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC), à qual estão afiliadas a Rádio MEC e a TV Brasil, considerou a música Clássica como elitista e, portando, DESNECESSÁRIA. Pretende-se, com isso, acabar com a Rádio MEC, um dos únicos veículos difusores da música Clássica, e, nessa segunda-feira, dia 26 de novembro, será realizado um fórum público que irá decidir o destino da Rádio. Nada disso está sendo noticiado.
Claro que tenho minhas críticas particulares à rádio MEC, mas a vejo de forma responsável, não utiliza seu espaço para elitizar a música que apresenta. Segundo a notícia revelada por Jocy de Oliveira, existe um equívoco grave na avaliação do EBC. Como podem definir que a música Clássica é elitista? A música Clássica não é elitista; quem tenta fazer dela elitista são alguns ouvintes e músicos de mente pequena, mas isso não condena a música, e tampouco a rádio. Ao invés de criarmos novos mecanismos para tornar a música erudita acessível às pessoas, limitamos e definimos o que é necessário e desnecessário? Se permitirmos uma ação hedionda como essa, estaremos abrindo espaço para que tenham o direito de escolher para nós que tipo de cultura é ou não necessária. Misturam alhos com bugalhos e criam argumentos falaciosos como justificativa para tirar uma importante rádio do ar. Não quero direcionamentos em relação ao que tenho que ouvir; quero mais opções para expandir minhas opções de consumo!


Quando a música Clássica foi realmente elitista, e como alguns estigmas ainda persistem
Muitos músicos e ouvintes reclamam do povo brasileiro, por não ouvir ou se interessar por música clássica. Acusações como “o povo não tem cultura” ou afirmações como “não querem elevar seu nível cultural” além de equivocadas, carregam toda herança do elitismo dos séculos passados, eu não diria que a música clássica hoje é elitista, mas houve um tempo em que já foi. Tudo começou quando a família Real veio ao Brasil trazendo então sua própria cultura, construindo moldes do que seria o “bom gosto”. Os batuques dos negros e suas umbigadas eram, segundo eles, o símbolo do “mau gosto” ou até ato do demônio. A partir dai já começamos a ter regras, segundo as quais se elitiza um tipo de cultura: a Europeia; e se marginaliza o que já existia no Brasil. A Música Clássica, nesse primeiro momento, ganhou espaço através das elites brasileiras e, posteriormente, com a criação dos Clubes de concerto em São Paulo (o Clube Haydn) e no Rio de Janeiro (como o Clube Mozart e Beethoven), terminaram por decretar a total elitização da música clássica, deixando apenas relegado à rua o que era feito por mestiços e negros.
Não podemos negar que o Rio se tornou a principal usina musical do Brasil, devido ao enorme encontro de cultura. Somente muito tempo depois, já no início do século XX, vamos ter a consolidação do samba; e, na década de 70, o nascimento da MPB. Como podemos ver, a música chamada Clássica (ou Erudita) coexistiu em meio a toda essa transformação que ocorria no Brasil. É claro que vamos ter compositores brasileiros, mas somente mais tarde é que teremos experimentos de mistura da música Clássica com o regionalismo. Nomes como Guerra Peixe e Villa-Lobos em muito contribuíram para isso. Mas mesmo com o término dos clubes de concerto, essa tentativa de construir regras para o que era bom gosto foi frustrada com o aparecimento da MPB, foi quando a elite viu algo digno de ser ouvido. A partir desse momento a música Clássica passa a perder força e ouvintes (que já não eram muitos).
Então quando alguém acusa o povo brasileiro de desinteressado, ou pessoas de “pouca cultura”, não parece conhecer um mínimo da história da música que eles próprios apreciam. A música clássica é pouco apreciada porque nossos antepassados não queriam isso; era algo para somente uma elite ouvir, e o que podemos fazer hoje para mudar esse quadro? Apenas continuar tentando levá-la às pessoas que não têm acesso ou interesse por esse estilo musical, porque nunca tiveram contato. No entanto, nunca devemos acusá-las de ignorantes. Veículos de transmissão como a Rádio MEC são importantes nessa hora, pois é um instrumento importante para colocar as pessoas em contato com esse tipo de música. Observo com pesar também que a grande maioria dos ouvintes, e parte dos músicos voltados para a música clássica, são extremamente arrogantes, e repetem o mesmo estigma dos seus antepassados. Ao terem contato com tal tipo de música, sobem em um altar de ouro e professam sua ilusória superioridade, por acreditarem ouvir uma música muito melhor que qualquer outra, e isso é um erro trágico, pois novamente se repete a tentativa de elitização de uma cultura, que precisa conquistar espaço, e não ser fechada a pessoas que se julgam superiores. Por causa disso também teremos o movimento inverso, nos quais pseudo elites da música chamada popular vão querer execrar a música clássica, pressionando suas feridas ou dizendo também asneiras, como “a música clássica não faz parte da cultura nacional”. Esse é outro erro frequente, pois a música clássica está no Brasil há tanto tempo quanto os ritmos mais antigos como o Lundu, e há compositores nacionais do estilo, já citados. Para encerrar, nunca é demais dizer: a dificuldade de acesso pelos brasileiros à música erudita é herança desses antepassados elitistas.

Resposta da EBC no dia  3 de dezembro de 2012.

Obtivemos alguma resposta! Ao que parece a EBC não fará “grandes” mudanças na rádio, isso quer dizer que ela realmente não será tirada do ar, mas mudanças em sua programação serão feitas. De qualquer forma a EBC está querendo ouvir os ouvintes, quer saber a opinião do público, então se você quer ter voz nessa decisão é só acessar o link a seguir e deixar sua opinião lá.
http://www.ebc.com.br/noticias/brasil/2012/11/assista-ao-coloquio-de-parcerias-e-ouvintes-das-radios-ebc#comment-726068080

Parecer oficial da EBC
A EBC - Empresa Brasil de Comunicação - atual entidade gestora da MEC FM realizou este ano seu Planejamento Estratégico, que apontou para a necessidade de fortalecer este vínculo desta emissora com este conteúdo, sempre procurando conquistar novos públicos ouvintes, e melhorando cada vez mais nossa programação.
Igualmente, o recém realizado Colóquio de Parcerias e Ouvintes da Rádio MEC FM, com a presença de inúmeros representantes das
entidades do universo da música clássica, voltou a confirmar esta 'visão de futuro'.
Portanto, nenhuma mudança drástica será feita na programação e
conteúdo da MEC FM sem antes ouvir nossos ouvintes e a sociedade
organizada, pois uma rádio pública deve pertencer cada vez mais ao povo brasileiro.


Bibliografia

MONTEIRO, Mauricio. A construção do gosto: música e sociedade na Corte do Rio de Janeiro 1808-1821.São Paulo: Ateliê Editorial, 2008.
NAPOLITANO, Marcos. História & música - história cultural da música popular. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2005.

Essa postagem também está no Histórica:
http://historica.com.br/musica-historica/o-futuro-da-radio-mec-e-o-elitismo-musical



2 comentários:

  1. A chamada música Clássica tem pouco apelo comercial, por isso, se a Rádio MEC que você mencionou ou a Rádio Cultura, em São Paulo, deixarem de fazer esse serviço, dificilmente alguém mais o fará, no máximo um horário perdido na madrugada em uma rádio mais descolada, como já acontece com o jazz hoje. É lamentável.

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  2. A RÁDIO MEC não tem compromissos comerciais para cumprir, pelo menos em tese NÃO DEVERIA TER, PERDEU UM BASTIÃO DA MÚSICA CLÁSSICA COM O PRETEXTO TORPE DO ELITISMO CHAMA SE FALTA DE ARGUMENTO PARA ATIRAR SE NOS BRAÇOS DO CAPITALISMO, PARABÉNS PELA LUCIDEZ A EQUIPE DO EUTERPE E NO QUE DEPENDER DE NÓS NO http://limparpolitica.blogspot.com VAMOS DENUNCIAR ISSO QUE É O SEPULTAMENTO DA CULTURA, NO BRASIL... Pois começamos com a música clássica e vamos terminar por onde, o BUMBA MEU BOI?

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