quarta-feira, 20 de junho de 2012

A Relação de Villa-Lobos com o Estado Novo de Getúlio Vargas.



Quando pensamos a música no Estado Novo de Getúlio Vargas (1882 - 1954), logo relacionamos ao compositor Heitor Villa-Lobos (1887-1959), ele foi o responsável por reformular o ensino musical no Período do Estado Novo (1937-1945). Algumas afirmações são feitas sobre o maestro, como a de colaborar com todos os ideais do sistema varguista, que visava um controle total da população . O que pretendo falar aqui é das ferramentas do Estado Novo e como Villa-Lobos acabou participando.

O Estado Novo
Vamos primeiro entender o papel do ideal cívico na reconstrução de uma nova identidade nacional, presente no Estado Novo, com uma citação de Maurício Parada no seu livro O calendário Cívico do Estado Novo / As cerimônias cívicas como objeto: o conceito de cerimônias sintéticas. :
“O patrocínio pelo regime varguista de cerimônias cívicas procurava realizar uma síntese cultural em monumentais rituais comemorativos de eventos cívicos e históricos importantes. Estes rituais, que serviram ao propósito múltiplo de unificar elites e massas, também simbolizaram um tempo e um espaço idílico no imaginário político brasileiro. Procuravam reinventar uma harmonia nacional que o regime varguista acusava ter sido destruída pela República Velha, assim como buscavam construir uma nova cultura política, que serviria de guia para a nação na direção da modernidade, soberania e ordem.” (p.21)

Uma das principais preocupações do Estado Novo era expulsar os vestígios comunistas deixados pelos movimentos grevistas do começo do século XX , além disso houve a mudança do calendário, criando datas cívicas e engrandecendo figuras históricas como Tiradentes, seria esse o momento da criação de um mito exemplar a ser seguido pelos jovens. Vargas necessitava de uma propaganda em massa, cartilhas como A juventude no Estado Novo, a qual Segundo Maurício Parada, "as massas escolares" no Estado Novo deveriam deixar "no futuro" de serem "desordeiras, desviantes ou revolucionárias, para se tornarem um recurso político capaz de garantir a segurança e a estabilidade do regime” (p.49) segundo Maurício Parada. Seria a necessidade de construir mentalidades novas, de acordo com as vontade políticas da época, necessitava-se construir um ideal de nacionalidade. Abolir o ensino de História das escolas, foi uma das ações mais radicais do Estado Novo, criando novas matérias escolares, como a chamada Educação Moral e Cívica, isso impossibilitou as novas gerações refletir sobre o passado, uma vez que o ensino havia sido amputado. Foucault identifica dois movimentos de dominação no ocidente, o poder soberano e os poderes disciplinares, citados no mesmo livro de Maurício Parada:
“O poder soberano seria uma forma de poder que se exerce sobre a terra e os homens e que estaria fundamentado em torno e a partir da existência física do soberano. Já os poderes disciplinares não seriam, pois, de modo algum transcritíveis nos termos de soberania; ao contrário, sua existência “abstrata” e “anônima” estaria fundamentada em sistemas contínuos e permanentes de vigilância.” (p.28)
Ou seja, a presença física do soberano, seria o próprio Getúlio Vargas;o poder abstrato, seria além dos meios de educação já citados, o uso da música, e é nesse campo que Villa-Lobos entra em ação.

Villa-Lobos
Heitor Villa-lobos nasceu no dia 5 de março e 1887, no bairro de Laranjeiras no Rio de Janeiro, era filho de Raul Villa-Lobos e Noêmia dos Santos Monteiro, vivia numa família de tradição musical, na qual músicos se reuniam aos sábados em sua casa para tocar, esse contato com a música desde cedo construiu seu gosto e interesse, sua Tia Zizinha tocava Bach ao piano, o que influenciou muito Villa-Lobos. Cito o seguinte trecho, da Mestra em História Social, Mirelle Ferreira Borges, presente no livro As Repúblicas no Brasil: politica, sociedade e cultura, organizado por Jorge Ferreira:

“Logo após a sua participação na Semana de Arte Moderna de 1922, Villa-Lobos partiu rumo a Paris. Já em 1923, suas peças eram apresentadas na Europa. Consolidada sua carreira no exterior, Villa-Lobos retornou ao Brasil em junho de 1930, realizando vários concertos de conteúdo nacional patriótico.” (p.95)

Villa-Lobos desenvolve na década de 30, um projeto com a intenção de estabelecer o ensino do canto nas escolas, afim de desenvolver a música nos jovens, em 1932 envia uma carta a Vargas, propondo a ideia do uso da música na construção de uma cultura nacional, naquele mesmo ano Villa receberia um convite para chefiar o Serviço de Música e Canto Orfeônico, estaria aberta as portas para que o maestro pudesse trabalhar. Como citado antes, na implantação do Estado Novo (dezembro de 1937), era visado a modificação da educação, afim de desenvolver as novas gerações. Obras importantes também foram realizadas nesse período, que podemos ver como pontos positivos, como por exemplo, no ministério de Gustavo Capanema, que além de criar o Departamento Nacional de Música e Teatro, também investiu no setor da saúde. O Estado via o teatro como uma expressão da cultura nacional, incentivaram o desenvolvimento do cinema e o teatro nacional. Foi dentro desse cenário que Villa-Lobos atuou, inclusive criticando em 1946, os métodos de ensino de sua época, que para ele, era incapaz de levar música a um grande número de pessoas, valorizava a música folclórica, segundo ele “expressão biológica da raça”. Villa-Lobos acreditava que o canto coletivo, seria a melhor forma de ensinar, e criar o sentimento de união, pois não estaria-se cantando sozinho, mas sim em grupo, em uma só voz, isso convergia com as ideias e propostas do governo Vargas. Citado por Mirelle Ferreira ainda:
“As apresentações orfeônicas não eram exibições artísticas ou recreativas. O objetivo era estabelecer a formação da disciplina coletiva da multidão, pois, segundo o maestro, a maioria da população brasileira ainda não compreendia a importância da disciplina coletiva.” (p.98)
Onde fica mais claro o que citei, sobre o sentimento de união:
“O canto coletivo, além dessas rupturas, predispõe o indivíduo à recusa do individualismo, fazendo crescer cada vez mais o sentimento de coletividade, de pertencimento, de renúncia e disciplina.” (p.99)
Villa-Lobos então assume sua posição politica ao lado de Vargas, e entra junto na empresa de construir um sentimento nacionalista, assegurando o futuro na nação. Mas pelo fato de Villa ter sido o único compositor a estar engajado nessa missão, não quer dizer então que era inovador no que fazia; pelo contrário, já em 1921 em São Paulo, o canto orfeônico já era utilizado, muitos projetos de música já eram direcionados antes de 1930, como por exemplo, por Francisco Braga, a questão é que Villa fez a proposta na hora certa, para a pessoa certa, e no momento correto.
Cito ainda do mesmo livro da Mirelle Ferreira:
“Villa-Lobos desenvolvera um projeto educacional voltado para a música com a utilização de temas folclóricos, algo que era bem divulgado em meio à intelectualidade brasileira naquele contexto. Portanto, não havia nada de inovador e nem de extraordinário na ação do maestro. O folclore representava uma eficiente possibilidade de inspiração para a construção da nacionalidade brasileira por apresentar uma linguagem simples, voltada para o cotidiano brasileiro, que ressaltava também o passado e as experiências da cultura popular. (p.101)

O Canto do Pajé
Uma das músicas que era de grande apreciação de Getúlio Vargas, era o Canto do Pajé, que sempre era executada na presença do Líder; Villa pretendia fazer uma homenagem a República e a Vargas.
Tupã no dicionário web, significa progenitor, e segundo alguns estudiosos no assunto, Tupã não é um deus, mas sim uma entidade desconhecida que se mostra através dos raios, Villa parece relacionar Vargas a esse mito, visava também a esperança no futuro, criando uma consciência coletiva.
Em seu livro, Parada cita Francisco Campos, da obra O Estado Nacional. Com o seguinte trecho que se encaixa bem nesse contexto:
“´é o meio pelo qual se procura disciplinar e utilizar estas forças desencadeadas, construindo para elas um mundo simbólico adequado às suas tendências e desejos. O mito sobre o qual se funda o processo de integração política teria tanto mais força quanto mais nele predominarem os valores irracionais. O mito da nação incorpora grande número destes elementos arcaicos.” (p.37)
Esse mundo simbólico tendo como base as mitologias nacionais, criariam uma cultura de massa, com essas forças irracionais, onde Vargas assumiria a forma de um “deus” do trovão, o guia da nação, e o Canto do Pajé mostra bem essa ferramenta.
Ver ao final, a música e a letra.

Conclusões
Villa-Lobos acabou tirando grande proveito de ter participado ativamente nos programas do Estado Novo, é fato que em 1920 ele não era bem conhecido, e depois da sua atuação em 1930 seu nome passou a ser corrente, é claro que não devemos pensar que Villa-Lobos desenvolveu seus projetos com a intenção de favorecer seu próprio nome, suas intenções eram realmente sinceras e ele acreditava muito no que fazia, também não é correto pensarmos que o teria feito unicamente por dinheiro, e ainda, como diversas vezes o mesmo deixou claro, que o seu objetivo era ensinar música as crianças na escola, embora mesmo assumindo uma postura politica, ele se priorizava o ensino de música.
Finalizo com as palavras da Mestra Mirelle Ferreira em sua conclusão.
“O grande interesse do maestro ao desenvolver seu projeto, era ensinar música às crianças nas escolas. Ainda que fosse bem remunerado pelo Estado, não podemos afirmar que o dinheiro movia seu trabalho. Embora Villa-Lobos expressasse sua postura política, a preocupação principal dela era a música, o ensino, a educação.” (p.105).

Algumas Obras
Guia prático, foi feito em 1930, contando com 137 arranjos da música folclórica.
Suite Nº 8

O Canto Orfeônico na educação, com base em alguns arranjos de Villa-Lobos.

O Canto do Pajé com Maria Bethania

O Canto do Pajé com Elizeth Cardoso

O Canto do Pajé com o Coral do IFBA (antigo Cefet-Ba)

Letra de: Paula C. Barros
Oh, manhã de sol
Anhangá fugiu
Anhangá rê rê
Ah, foi você
Quem me fez sonhar
Para chorar a minha terra
Coaracy rê rê
Anhangá fugiu

Oh, Tupã Deus do Brasil
Que o céu enche de sol
De estrelas de luar e de esperança
Oh, Tupã tira de mim esta saudade
Ah, Anhangá me fez
Sonhar com a terra que perdi

Oh, manhã de sol
Anhangá fugiu
Canta a voz do rio
Canta a voz do mar
Tudo a sonhar
O céu e o mar
O campo, as flores
Oh, manhã de sol
Anhangá fugiu


Fontes:

PARADA, Maurício. O calendário Civico do Estado Novo / As cerimônias cívicas como objeto: o conceito de “cerimônias sintéticas. In:__Ecudando Corpos e Criando a nação: Cerimônias cívicas e práticas disciplinares no Estado Novo. Rio de Janeiro: Ed. PUC Rio: Apicuri, 2009.

FERREIRA, Jorge. As Repúblicas no Brasil: politica, sociedade e cultura/ Jorge Ferreira. Niterói: Editora da UFF, 2010.

http://www.dicionarioweb.com.br/tup%C3%A3.html [acessado em 17/06/2012 as 11:58]

http://www.dicio.com.br/tupa/ [acessado em 17/06/2012 as 11:58]

2 comentários:

  1. Muito obrigada! esse texto ajudou demais no meu trabalho de história!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fico feliz de poder ajudar, volte sempre =)

      Excluir