quinta-feira, 17 de maio de 2012

Arte, Música e possíveis monetizações




A Música é uma arte que atinge diretamente os sentimentos de quem a ouve, pode afetar o estado de espirito ou trazer lembranças, pode acalmar, e também pode nos excitar. Funciona muitas vezes como outros tipos de arte, mas ainda sim é mais direta, pois se utiliza do som para esse fim. A música é uma arte; então podemos dizer que o Músico é um artista dos sons.

Muito se reclama da falta de reconhecimento da qual sofre o artista, e que o artista não é respeitado. Exigir respeito é o direito de todos, e sim, reconhecimento é um dever a ser feito, que partirá da proposta, do trabalho do próprio artista e do público que o interpreta.

A Arte como profissão

Compara-se a Arte a uma profissão, com questionamentos como “por que o artista não é respeitado como qualquer outro profissional? Por que a Arte ou a música não são respeitadas como profissão?”

Em primeiro lugar, devemos seccionar o lugar e a região onde tratamos desse assunto. Em alguns lugares, a música pode ser mais ou menos importante, pode ser mais ou menos reconhecida, tudo depende do tipo de música, em qual tipo de região. Falando-se em Brasil apenas, temos um país muito vasto, e por ser assim tão abrangente e com etnias tão misturadas, possui então uma diversidade cultural muito grandes. Então fica difícil determinar certas premissas, mas o que podemos abordar são assuntos em comum, como no caso, sobre o respeito ao Músico, ou ao Artista, e as formas de monetização possíveis, tentando ver uma regra geral.

A Arte da Cidade, do Campo e a Arte comercial.

Podemos estabelecer a diferença entre a música no meio urbano e no meio rural. O que pude observar na minha vivência de músico sobre a diferença da arte nesses dois meios foi que, na área rural, temos um povo que é muito voltado para o trabalho, ou seja, precisa trabalhar sempre para viver; e o número maior de filhos significa para esses povos mais força de trabalho no campo, onde a arte e a música fazem parte da vida dessas pessoas, e estão até mais presentes que no meio urbano. A arte e a música, nesse caso, são mais naturais, pois fazem parte da vida de uma família, onde existe a tradição oral. A música de raiz que se aprende com o pai, e que o pai aprendeu com o avô, é por vezes rústica, mas totalmente original. Sofre mudanças no decorrer da história, lentamente, sempre muito bem enraizada no viver, mas em dias globalizados como os de hoje, até mesmo no meio rural, a arte se modifica mais rapidamente.

A Arte Urbana é mais suscetível a influências externas, de outros países, é mais abrangente, sofre mudanças rápidas, inovações constantes, inúmeras reinvenções, misturas e experimentos. Ela também pode ser conservadora e lenta, exceto em alguns casos. No entanto, é principalmente no Urbano que se dá inicio ao nascimento de uma terceira categoria, que é construída dentro do âmbito do comércio, o comércio da música. Se é sujeita a experimentos nesse caso, são experiências comerciais, se cria algo então para a “massa” consumir, moldado para vender, ainda podemos levar em conta o fator da música do campo, que é levada para a cidade e, assim, sofre suas modificações, onde sempre a mais visível é a mistura com a música comercial. Daí temos claros exemplos de ritmos sertanejos que sofrem toda uma transformação com base em experimentos que ditam o que está na moda e como deve ser o artista para assim vender mais.

No meio Rural, o músico como profissão será um caso raro. Embora muitos façam música, a mesma fará parte da vida do trabalhador do campo, que poderá ser o músico no fim de semana ou nos encontros de moda de viola; poucos serão aqueles que viverão só da música. No meio urbano, haverá casos parecidos com o rural: trabalhadores que terão a música em suas vidas, que também irão compor, executar e se divertir com a música; alguns dizem que esses são aqueles que fazem música por Hobby. Teremos os que trabalham com música, sendo professores, compositores, instrumentistas, que ralam e correm atrás e, em alguns casos, têm uma certa estabilidade financeira. Mesmo sendo difícil no Brasil, alguns músicos no meio urbano podem viver relativamente bem, embora a maioria sempre concorde que existe mais oportunidade fora do Brasil. Teremos então também os músicos que se entregarão a buscar dinheiro de todas formas possíveis, se moldando à forma comercial, fazendo o que o mercado pede, o que a moda determina, e nesse caso também o músico pode vir a buscar uma boa estabilidade.

Formas de monetização da Música.

Existe a forma mais conhecida, que é sendo contratado por uma gravadora. Produtores muitas vezes vão ditar as regras sobre a moda, o artista vem pronto e depois é modificado, ou ainda, o próprio produtor cria seu artista, com base no que está vendendo mais. Dificilmente um artista conseguiria autonomia em um meio assim. A outra forma é o patrocínio, que dependendo de qual seja ele pode ou não dar liberdade ao artista, mas não acredito que a liberdade exista a todo tempo; toda parceria implica em algum tipo de limite mesmo que seja mínimo, não que isso seja ruim, mas em algumas horas também pode não ser bom. O artista pode nessa hora fazer suas exigências, é o momento em que devemos valorizar o trabalho, e só a partir de práticas assim é que teremos um pouco mais de autonomia e respeito. O Músico pode ainda tentar contar com a velha venda de álbuns, mas devemos pensar nos dias atuais, será que vale a pena hoje apostar tanto nesse método?

Venda de álbuns e a internet.

Todos sabem que muita gente baixa músicas pela internet. Os tempos são outros agora; a internet está presente na vida de muitas pessoas, dados são trocados rapidamente, um novo álbum de música é baixado sem dificuldade. Observo que alguns artistas conseguiram se adaptar à nova realidade, e deram a volta por cima. Como fizeram isso? Simplesmente disponibilizaram legalmente seus álbuns em um site onde o fã pode baixar e ouvir sem se preocupar em ser algo ilegal. Além do carisma que o músico ganha com esse ato, ele se livra de uma problemática e cria um novo sistema, que é o de doação. Já vi isso com a banda Radiohead; você baixa o álbum e doa se quiser, e por fim os músicos vão para a rua fazer seus Shows. Lembro-me bem de uma critica do Lobão. Quando o mesmo começou a vender seus CDs em bancas de jornal, ele dizia algo como “o músico precisa deixar de ser vagabundo e voltar aos palcos para fazer show”, não exatamente com essas palavras. Não acuso o músico de ser vagabundo; talvez alguns o sejam realmente a ponto de produzirem álbuns e viverem só de ECAD e venda de CD, mas isso, no geral, favorece mais as gravadoras do que o próprio artista. Então vejo que a nova alternativa é possível, uma vez que desmonta todo esse esquema de domínio de uma gravadora. Não é à toa que existem suspeitas não comprovadas (pelo menos eu desconheço) sobre a participação de donos de gravadoras no caso de Kim Schmitz, o fundador da Megaupload, um dos maiores sites de download da internet. É mais cômodo para o sistema que ganha se permanecer imóvel, pois assim se engorda mais rápido. Mudanças sempre foram vistas como inimigas, a não ser que essas mudanças trouxessem algum tipo de beneficio, nesses casos, as mudanças devem vir sempre de baixo, daqueles que se sentem incomodados.

Por que não se valoriza a Música como profissão séria?

Geralmente, atribui-se a não valorização do Músico à economia do país. Como o Brasil é um país que tem uma série de problemas mal resolvidos, onde falta saúde e educação, e se gasta na faixada como se fôssemos um País perfeito, como encarar com seriedade a Arte em geral? Como valorizar seus artistas e músicos, uma vez que nem as necessidades mais básicas são acessíveis ao brasileiro? Esse pode ser o motivo principal de todo o problema, mas ainda podemos somar a esses uma série de outros fatores talvez até menores. Sabemos que tudo foi um amálgama de culturas, e ainda devemos somar os anos seguintes, influências de cultura externa desde os imigrantes até a massificação da cultura norte americana. Um clássico exemplo é o Cinema; apenas hoje se começa realmente a emergir o cinema Brasileiro, embora já exista há muito tempo, as salas de cinema sempre foram dominadas pelos filmes americanos. Não me oponho à música vinda de fora, mas apenas atento ao fato de que boa parte da música que fizemos no país sempre sofreu enorme pressão e dificuldade para se gerar, e, principalmente, para ser reconhecida por seu próprio povo como algo válido e bom. Em um país em que a arte ainda está nascendo de dentro e buscando seu espaço, fica fácil entender o motivo da não valorização. Vejo com bons olhos esse processo, afinal o Brasil historicamente é recente, e ainda temos o problema da cultura comercial criada também para influenciar. Fica difícil fazer um povo entender sua própria cultura quando são constantemente bombardeados e influenciados a consumir o comercial. A coisa fica ainda pior quando é comercial vindo de fora; se embute na mente das pessoas que aquilo que vem de fora é bom, e muitos caem nessa arapuca. Mas ainda assim esse problema é um caso menor, pois é como a população brasileira se comporta. Em alguns casos, não dá para dizer que todas as pessoas são assim influenciadas; então prevalece realmente o problema econômico do país como um dos maiores motivos para a não valorização da arte em geral. Quando o País investe em cultura, é somente naquela que sirva de Ópio do povo; as que não funcionam dessa forma, ou não dão retorno, ou são ignoradas.

Um segundo emprego como alternativa

Essa seria mais uma alternativa para que o músico conseguisse um pouco de autonomia – conseguindo em parte, fugir desses sistemas de dominação, e tentando fazer tudo “na cara e na coragem”. Muitos músicos vivem trabalhando em algo que não seja arte, e também com música, seja ganhando ou apenas para se divertir. Com muitos foi assim que aconteceu, até com músicos famosos, e nem por isso deixaram de exercer uma arte ou foram menos músicos que outros. Realmente um bom músico pode ter mais chances de ingressar e viver de música, mas nem sempre isso é uma regra para todos; tudo vai depender dos contatos que têm, das oportunidades, e, dependendo da oportunidade, se vai ou não se submeter a mudanças, como exemplo para mostrar que não basta só o conhecimento, mas também um pouco de “sorte”. Conheço músico com doutorado e vasto conhecimento que tem menos que outros que ainda estão se formando na faculdade.

É claro que o sonho da maioria dos músicos e viver de música, mas quando isso não se faz possível, é importante pensar em como ganhar a vida, mas nunca abandone a música, pois ela faz parte da sua vida, você vivendo dela ou não. Se a sociedade onde você vive não lhe dá condições atualmente para viver apenas de sua arte, é necessário correr para a caça. Pode ser que em outro dia mais no futuro o seja. É importante ver tudo como algo prazeroso também; não depositar na arte uma obrigação, afinal, é uma das poucas coisas que fazemos por prazer. Culpá-la ou praguejar contra sua arte, apenas pelo fato de você não conseguir se sustentar dela, seria injusto a meu ver. Daí vêm as tentações para modificar sua forma de produzir, contra a sua vontade, em prol da exigência de um contratante ou patrocínio. Fica a pergunta então, vale a pena “vender sua alma”?, e ser massa de manobra? Isso só você poderá decidir.

A comparação

Eu pelo menos consigo comparar, às vezes, a Música a uma profissão. Qualquer pessoa pode sentir prazer com o trabalho que faz, mas muitas trabalharão com algo que não se gosta ou lhe é indiferente. Geralmente quem é músico ou artista, o faz porque gosta; afinal trabalhar com Arte dificilmente trará muito dinheiro em alguns casos, mas sempre será prazeroso, o que afasta muito a possibilidade daqueles que o fazem sem gostar. Em outras horas posso ver a música como algo muito além de uma profissão apenas; ser um trabalho seria pouco para o que conseguimos fazer com essa arte, a forma como podemos emocionar alguém com esse “trabalho”, são situações que o dinheiro não pagaria.

Como a Arte pode ajudar em outras profissões.

Certa vez quando fiz minha primeira entrevista de emprego, foi-se levado em consideração meu estudo em música, na qual deixei de propósito no curriculum da época. Afinal, o artista precisa de um combustível básico que é a criatividade, um funcionário criativo sempre é bom para uma empresa, um arquiteto criativo chamaria mais a atenção que um outro medíocre, e talvez uma veia artística possa ser um empurrão na vida dessa pessoa. A arte no geral faria bem não só para à vida profissional, mas na vida do ser como um todo. Ver o mundo como uma obra de arte, é uma perspectiva única e maravilhosa.

Qual é o caminho então?

É importante exigirmos respeito à música e à arte, que são profissões mas também podem ser um passatempo, uma terapia ou uma tradição. Pode-se ganhar dinheiro com arte, mas também se pode fazer arte sem ganhar dinheiro. Podemos monetizar nossas vidas de músico, ou podemos fazer pelo simples prazer de estar fazendo música, seja explicado pelo Narcisismo ou não. A sociedade onde vivemos também irá determinar o quanto esse respeito é mais facilmente atingível ; a força da cultura interna e a história do País poderão favorecer em alguns casos.

Devemos lembrar mais uma vez o pensamento político onde não se discute Arte a sério, não se discute educação a sério, não se discute saúde, não se leva a sério o Brasileiro no geral. O que quero dizer com isso tudo é que esse problema é bem generalizado. O Artista é mais um que tenta sobreviver, e não condeno aqueles que buscam os patrocínios; é uma das possíveis formas de se fazer arte e viver disso, mas se você é artista e enveredou para esse caminho, exija seu respeito, brigue por isso, fará bem a si mesmo e a todos os artistas que lutam por esse reconhecimento.

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