terça-feira, 27 de março de 2012

A Vitima histórica na música, Sujeito: Renato Rocha






Há poucos dias, saiu uma matéria na Record, contando a história do músico Renato Rocha, ex-baixista do Legião Urbana. O título da entrevista a que assisti no site do R7 dava a entender que era uma alusão à condição do músico no Brasil, que nunca foi muito justa, e achei que ele era apenas mais uma vítima do descaso, como de muitos artistas esquecidos com o tempo e que só vão ser lembrados depois de sua morte. Recentemente, tivemos um caso assim mas isso fica para um outro debate...

Assisti à reportagem e, para minha surpresa, a mesma foi quase um estudo histórico. Não só foi mostrado o que aconteceu, como também foi feita uma análise da trajetória de vida de Renato Rocha, com os possíveis motivos que teriam levado o baixista a virar um morador de rua. Observei como muitas pessoas logo se revoltavam com a situação e buscavam imediatamente um responsável pelo “absurdo”. Os primeiros a serem atacados eram os outros dois ex-integrantes da banda, Bonfá e Dado. Alguns logo associaram a expulsão de Renato à cor de sua pele, claro que tendo em vista que existe sim o preconceito etnico, a afirmação parece plausível, mas ainda sim devemos observar todas as possibilidades. As teorias são muitas e vão se formulando na cabeça do povo; muitas tomadas por esse sentimento de buscar imediatamente um criminoso que teria levado o “coitado” Renato Rocha a virar morador de rua. Analisei a reportagem que por si só já explica alguns dos motivos. Li uma reportagem no site do Luiz Cesar Pimentel e juntei os fatos, comparei logo o baixista a um sujeito histórico, que faz a sua história, faz parte dela e suas ações também a modificam. Como sujeito, ele não é passivo às ações externas; ele também toma suas decisões e tem suas ideologias, como por exemplo no caso de ele ter assumido uma postura “Skinhead” alguns anos antes, segundo a entrevista no site do Luiz. Tais fatores levaram à construção de sua trajetória de vida. Li um artigo interessante do advogado Jesus Nagib Beschizza Feres, que fala sobre a Vitimologia, do qual destaco o seguinte trecho:

“A Vitimologia tem como seu fundador Benjamin Mendelsohn, Advogado e Professor Emérito de Criminologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, que no ano de 1947 apresentou sua conferência ´Um novo Horizonte na ciência biopsicossocial – a Vitimologia´. Nessa conferência o autor deixa claro de que não se poderia mais considerar a vítima como simples coadjuvante de um ilícito penal, não podendo mais ser taxada como mero sujeito passivo do crime, enfatizando ser indispensável o estudo do comportamento vitimológico, os atos conscientes e inconscientes que podem levar à eclosão de um crime. Propõe também a sistematização de pesquisas e estudos sobre o referido assunto, não mais como um ramo da Criminologia, mas como uma ciência própria e autônoma denominada de Vitimologia. [...]Hans Von Hentig, um dos primeiros estudiosos da vítima, fez a classificação de vítima nata, como sendo aquela que detêm um comportamento agressivo, de personalidade insuportável, que pelo modo de agir, de viver, propicia a ocorrência de um delito. Seu estudo teve grande significado para acabar com a visão da vítima como sendo apenas mero sujeito passivo da ação criminosa, pois ela poderá, em diversos níveis, revelar uma função criminógena e até mesmo apresentar uma alta tendência para se tornar vítima.”
Hans Von Hentig , professor alemão que aprofundou o conhecimento com a problemática da vítima.

No inicio, o trecho fala o que tento explicar sobre a vítima não ser passiva, mas as vezes até ser o causador do “crime”. A pessoa que sofre não é meramente passiva. Isso nos faz pensar um pouco antes de considerar alguém apenas um pobre coitado, vítima dos outros, ou como isso é construído por parte de alguns fãs, culpando a sociedade como um todo, é interessante observar algumas relações com o racismo, pelo fato de Rochar ter sido o único negro da banda, isso me fez pensar bastante, só poderia afirmar essa afirmação como vitimização se estivesse dentro da banda acompanhando a vida dos músicos, mas estamos em um país que é extremamente preconceituoso em relação a cor da pele, talvez esse seja um ponto que chama atenção para se pensar no caso do baixista, talvez até um dos poucos comentáriosmais coerentes sobre o caso. Observando o julgamento das pessoas que comentam as páginas na internet para vermos como se constroem as histórias por cima da noticia.

Renato Rocha foi expulso da banda não por motivos étnicos (segundo os ex integrantes), ainda na declaração deles, o baixista estaria faltando com ensaios, voos, ou seja, atrasando a banda. Isso é péssimo para qualquer grupo. Um integrante que não tem muita responsabilidade e organização pode comprometer qualquer trabalho. Diante da falta de postura profissional, cabe aos demais integrantes da banda o ato de convidar o problemático a sair do projeto. O baixista teve outras bandas depois, não soube como administrar o dinheiro que ganhava, inclusive os 916 reais que ganhava por mês do ECAD. Claro que não é muito para o padrão de vida que tinha antes, mas muita gente consegue viver até com menos que isso e não chega a morar na rua. Sabe-se também que, segundo o depoimento do próprio pai, ele não queria planejar os gastos de suas verbas - “dinheiro é pra se gastar”, assim dizia o músico. Também se conta o fato de Rocha ser usuário de Drogas, e, em alguns casos, usuários podem gastar tudo que têm para alimentar um vício. Ao que parece, também alguns amigos relatam que tentaram ajudar.

Também não vamos atribuir somente a culpa a Renato. Embora grande parte das suas escolhas tenham influenciado ao estado em que está hoje, a vitimização pode ser uma ferramenta boa para entender melhor as verdades escondidas em um fato. No entanto, pode também ser usada erroneamente, como no caso do “Negacionismo” ou em algumas revisões históricas acerca da ditadura militar e no próprio Nazismo, usados para tentar justificar certos fins.Devemos respeitar o músico como um indivíduo com suas próprias escolhas, e também desconfiar das mídias que o julgam, como por exemplo o próprio blog de Luiz Pimentel e editada por Vivaldo Simão, onde só nos é possível ver uma parte de toda a vasta entrevista com o músico, o que nos faz pensar: será que trechos não são devidamente escolhidos com alguma intenção? Existe alguma tendência em demonizar a visão da banda? Será que o discurso anti-drogas não é exagerado? Comparamos com tudo que está acontecendo agora e acabo vendo que da mesma forma que a mídia e as pessoas constroem o papel de vitima em cima do músico, também conseguem condena-lo com facilidade sem levar em conta a individualidade do sujeito.O fato de ser negro pode ser muito relevante, em um país como o nosso onde o preconceito pela cor ainda é muito presente, acredito que esse fator possa ter dado menor tolerância aos erros de Rocha, mas utilizar somente esse motivo poderia ser perigoso também, embora, acredito eu, tenha influenciado muito nas decisões da banda.O importante é entender que ambos os processos tanto contra ou a favor de Renato estão agindo o tempo todo, e cabe a nós entendermos o "jogo de xadrez", mas principalmente no final da história, não vitimizar o sujeito apenas.


É importante sempre apurarmos os fatos, procurarmos ser sempre imparciais (ainda que seja praticamente impossível), não julgar nem defender sem uma base mais concreta, e que tal base só será formada através de teses e antíteses. Experimente receber uma noticia e questiona-lá; pesquise a outra versão e por si próprio faça sua própria dedução dos fatos. Isso lhe dará um poder de visão e de questionamento que poucos se preocupam em ter. Mesmo que para uma figura que admiramos, devemos pensar isso: se não estamos sendo parciais demais na avaliação. A vida é feita de escolhas e oportunidades; somente elas nos levam aonde estamos agora, Renato Rocha teve suas oportunidades e fez suas escolhas, foi influênciado pelos meios externos também, mas participou ativamente de toda construção de sua história.


Fonte

Portal R7 : http://noticias.r7.com

Blog do Luiz Cesar Pimentel: http://www.papolog.com/

Artigo Juridico de Jesus Nagib Beshizza Feres: http://www.jurisway.org.br/


Bonfá sobre Renato Rocha: http://musica.terra.com.br/noticias/0,,OI5686017-EI1267,00.html

7 comentários:

  1. É muito bom levar determinados fatos em consideração justamente quando a sociedade está discutindo o papel do ECAD, a participação deste músico Renato Rocha no início da carreira do Legião.
    O grande problema é justamente as variantes étnicas e sociais que levam um MÚSICO, vejam bem, não é um artesão, um peão de obra, e sim um MÚSICO para a marginalidade.

    Parabéns pela discussão Daniel.

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  2. O ponto principal: por ser um ser humano ele se tornou aquilo que as suas escolhas o levaram. Há um meio, há uma realidade, mas as suas escolhas, a partir do material dado, seja genético, seja social, que o define como pessoa. São as escolhas e nada mais. Só vejo um erro nesse post, está no lugar errado e da forma errada. Devia vir pra cá scielo.org e dá uma melhorada no quesito homem histórico definindo daonde se tirou essa definição. No mais, ótima construção argumentativa.

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    1. Owen muito obrigado pelo comentário, estarei dando uma olhada e consolidando melhor a definição, obrigado

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    2. Owen pude dar uma consultada, o termo é muito usado e apareceu primeiro na escola dos Analles, "a historia vista de baixo" faz parte desse contexto

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  3. Já fui contra a criação de cotas para negros em universidades, compartilhando a crença de muitos de que os negros devem competir em condições de igualdade com qualquer outra etnia na sociedade. No entanto, após estudar na universidade sobre minorias (étnicas, de gênero, entre outras), passei a entender que o negro já entra nessa "briga" (seja por vagas em universidades ou por trabalho) em condições desiguais em relação a outras etnias, devido a heranças oriundas do fim da escravidão. Nesse sentido, as cotas seriam nada mais do que uma reparação de um erro secular. No caso de Renato Rocha não acho que seja procedente uma análise pelo viés do racismo, pois o considero VÍTIMA sim, mas das drogas. O fato de ter abandonado a família e ter ido morar na rua, mesmo tendo condições financeiras que não justificassem isso, é uma situação típica daqueles que são dependentes químicos. Por isso, não vejo coerência em analisar essa situação sob a ótica do racismo. Não acho que o fato de o músico ser negro deva ser ignorado. Só não considero isso o REAL motivo de ele ter deixado a banda.

    Ótima publicação, Daniel, que tem fomentado calorosos debates no blog!

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  4. também considero que ele é vitima de uma dependência quimica, creio que a cor pode ter influenciado na época, mas ele saiu relativamente bem da banda, o trajeto dele pós banda, utilizar um discurso apenas, que é totalmente culpa do sistema ou da cor da pele, seria vitimização. também sei que além das escolhas temos sim forças externas agindo o tempo todo, não somos totalmente livres para agir, tudo vai depender da situação, em algumas vezes a ação do sujeito não faz muita diferença (em casos de opressão como a ditadura), em outros o externo não está tão presente e depende das nossas escolhas, fiz o post mais para vermos um exemplo de sujeito histórico e como ele pode ou não ser vitimizado, não sou a favor de extremismos onde só se põe a culpa no sistema se isentando totalmente das próprias ações.

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  5. Somos todos vitimas (ou culpados, como prefiro pensar)de nossas próprias atitudes ou reações. Como você mesmo disse, ele participou ativamente de toda construção de sua história. Parabéns pelo ótimo texto.

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