terça-feira, 13 de março de 2012

Música e Arte Renascentista

Logo após o período medieval, temos o que chamamos de Renascimento. É claro que, como todo período histórico, existem divergências sobre as datas em que teria começado e terminado tal época; são apenas convenções que funcionam mais como forma didática, Roy Bennet adota os anos de 1450 até 1600 para representar o período da música Renascentista, usaremos esse trecho para melhor situar o leitor. Venho abordar então o tema "Arte e música renascentista", traçando um paralelo entre a arte visual e a arte do som desse mesmo período. Sempre busquei essa similaridade, criando um diálogo entre música e as outras artes como pintura, escultura, literatura.

Segundo Gombrich, “As novas descobertas que os artistas da Itália e Flandres tinham feito nos começos do século XV produziram um frêmito de emoção em toda a Europa. Pintores e mecenas estavam igualmente fascinados pela ideia de que a arte pudesse ser usada não só para contar a história sagrada de uma forma comovente, mas para refletir também um fragmento do mundo real. Talvez o resultado mais imediato dessa grande revolução na arte tenha sido os artistas começarem por toda parte a realizar experiências e a buscar novos e surpreendentes efeitos. Esse espírito de aventura que se apoderou da arte no século XV assinalou a verdadeira ruptura com a Idade Média” (p.247)

A Batalha de Sam Romano


O martírio de São Sebastião

É importante relembrar que tais rupturas não aconteceram de um dia para o outro, e tal forma de pensar também leva muitos a crer que os artistas, nesse dia, jogaram tudo para o alto e saíram correndo da Igreja. Não é bem por aí; muitos continuaram produzindo para a Igreja ao mesmo tempo que produziam outras obras, inclusive a Igreja promoveu o Mecenato de artistas no Renascimento como Rafael e Michelangelo, alguns Bispos e Papas eram assim chamados de Mecenas.

Rolland de Cande diz “Consagrados pela edição, os músicos célebres são tratados pelas famílias poderosas que os tomam a seu serviço, com marcas do mais alto apreço. Mas, no plano material, vivem na dependência de seus senhores e mestres, cuja generosidade, e só ela, lhe permite estabelecer-se decentemente por sua conta. Ora, se os grandes mecenas raramente são generosos, frequentemente são pródigos em talento e às vezes têm certo gênio.” (p. 324 -326)


Os artistas plásticos começaram a se aprofundar no estudo da perspectiva, criada pelo arquiteto Filippo Brunelleschi (1337 -1446) e divulgada por artistas como Donatello (1386 - 1466) e Mosaccio 1401 - 1428) que eram ligados a ele. Como podemos ver na obra de Paolo Ucello (1397 – 1475), intitulada A Batalha de Sam Romano"(1450). Detalhes para a profundidade da pintura, a forma como os cavalos no primeiro plano parecem esculpidos, o cavaleiro morto ao chão e como as lanças também quebradas e caídas denunciam o “ponto de fuga” do quadro, tudo matematicamente pensado de acordo com as regras vigentes. Agora veremos uma obra de arte que pode finalmente ser equiparada à Música, a obra de Antonio Pollaiuolo (1432? - 98), O martírio de São Sebastião (c.1475). Podemos observar como o quadro é simétrico e como existe uma imitação das figuras de um lado do quadro, invertidas do outro lado. No livro “A história da arte”, de Gombrich, cita-se: “Desse modo simples, o pintor esforçou-se por suavizar a rígida simetria da composição e introduzir um sentido de movimento e contramovimento à maneira de uma pe

ça de música” (p.262). Vamos comparar primeiro a citação do livro “Uma breve história da Música” de Roy Bennett:

“Uma das diferenças mais marcantes entre os estilos medieval e renascentista é a tessitura musical, a maneira como o compositor trabalha o 'tecido' de sua música. Enquanto o música da Idade Média procura um jogo de contrastes construindo sua trama com fios distintos, dispostos um contra o outro, o renascentista visa um tipo de tecido com os fios todos combinados. Em vez de uma tessitura em camadas, ele trabalha a peça gradativamente, atendendo a todas as partes vocais ao mesmo tempo, de modo a obter uma malha polifônica continua. O elemento chave nesse tipo de tessitura é chamado imitação, ou seja, a introdução , por uma voz, de um trecho melódico que, imediatamente depois será repetido ou copiado por outra voz” (p.24)

A exemplo de comparação, a descrição feita por Roy Bennett pode ser ouvido na composição do compositor Inglês Thomas Tallis ( 1505 – 1585), cliquei no nome da música abaixo para ouvir



Como podemos ouvir e entender de forma muito básica, um a determinada melodia e letra são cantados por uma das vozes, a outra logo em seguida repete, e ao fim da segunda voz, entra a terceira novamente imitando. Remetemos a Pollaiuolo, em que as gravuras são repetidas, da mesma forma que a linha melódica e letra também são.
Polifonia e Contraponto

Como essas vozes trabalham? Simples! Elas se utilizam da arte do contraponto, ou seja, a coordenação das linhas melódicas dessas várias vozes. A palavra em sua etimologia vem do Latim e significa ponto contra ponto, ou seja, as notas de uma voz sendo executadas ao mesmo tempo que as notas de outra voz. Cada som (nota) seria um ponto, duas vozes ao soarem juntas, iriam uma contra a outra, não disputando em volume, mas combinando-se, o termo “contra” estaria melhor atribuído a uma visualização gráfica da partitura, principalmente na hora de se compor, onde se pode ver claramente a melodia, como no exemplo abaixo detalhei em uma notação moderna duas vozes representadas na partitura, fiz uma linha tracejada ligando a cabeça das notas, ou seja os pontos, mostrando a relação de um com o outro, ou seja, o contra ponto.

O contraponto tem sua origem nos Organum, que é a música polifônica do Século IX, que se desenvolveu até o século XII,onde tinhamos uma voz principal ou vox principalis compondo notas que seriam mais longas, o cantus firmus, contraponteada pela segunda voz, a vox organalis. Um dos compositores que melhor mostra como funciona o Organum é Gullaume de Machaut (1302 – 1377). clique no nome da música abaixo para ouvir o exemplo:


Messe de Notre Dame. Agnus Dei – Ite Missa est Giotto

No entanto foi Josquin des Prés (1440 - 1521) que desenvolveu melhor essa Polifonia, prepara esse novo período humanista na música.clique no nome da música abaixo para ouvir essas mudanças:

Agnus Dei, Missa da pacem

H.J. Koellreutter diz eu seu livro de contraponto, “Articulação clara e facilmente apreensível, lógica e coerência formal, períodos contrastantes, principio de repetição de trechos pequenos, sequências, ostinato e o estabelecimento definitivo do estilo imitativo são características da obra de Josquin des Prés” (p.11)

Ele explica a clareza que a música soa, uma harmônia balanceada com momentos mais tensos, repetição de trechos algumas vezes continuamente pela voz mais grave, e a característica de imitação da melodia, e letra da música, já citado antes.

Muitos compositores desenvolveram a técnica da polifonia vocal e podemos citar os trabalhos de Gullaume Dufay (1400 -1474), Gilles Binchois (1400 – 1460), Johannes Ockghem (1420-1495), Jacob Obrecht (1450-1517), Adrian Willaert (1480 -1562), Orlando de Lasso (1532-1594), Tomás Luis de Victoria (1540-1611), Thomas Morley (1557-1603).


Esse período na música é importante pois, através dele, se desenvolve no futuro a polifonia. Esse princípio vai orientar a música tonal* que é como a conhecemos hoje.

Com todos esses dados podemos nos perguntar então o Renascimento apresentou novasdescobertas, novos recursos musicais? Sim e não. Tal como as artes plásticas criaram o recurso da perspectiva, por exemplo, a música desse período inovou ao desenvolver o contraponto e a imitação... No entanto, a era Medieval não foi estéril na criação de recursos musicais, pois desenvolveu a Polofonia... quero finalizar com mais uma citação do livro "A História da Arte" de Gombrich:


"Na excitação do triunfo, talvez pensassem inicialmente que a descoberda da perspectiva e o estudo da natureza poderiam resolver todas as suas dificuldades. Mas não podemos esquecer que a arte é inteiramente diferente da ciência. Os meios do artista, seus recursos técnicos, podem ser desenvolvidos, mas dificilmente em algum outro ponto." (p.260)

Novas descobertas levariam a novas problemáticas; o antigo nunca deixaria de existir ou seria substituído, mas sim ampliando as técnicas.

*O Tonalismo se consolida no período Barroco, seria uma padronização da afinação, a estipulação de tons iguais, teríamos o nascimento dos instrumentos temperados, ou seja, padronizados dentro de um sistema de afinação.


Bibliografia usada

GOMBRICH, E.H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 2008.


BENNET, Roy. Uma breve história da música. Rio de Jnaiero: Jorge Zahar Ed. 1986.H.J.

Koellreutter, Hans Joachim, 1915- Contraponto modal do século XVI: Palestrina / H.J. Koellreutter. Brasília, DF: Musimed Editora, 1996.

CANDÈ, Roland de. História Universal da Música. Editora Martins Fontes, São paulo, SP. 2001.


3 comentários:

  1. Texto muito bom moço.
    Vou passar mais vezes aqui quando der tempinho.
    Continue escrevendo.
    :*

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  2. Parabéns,adorei,não se encontram mais informações sobre a música renascentista nos outros sites.

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